TOMAZ DE FIGUEIREDO

Apresentação

 

Tomaz de Figueiredo era dono de personalidade complexa, que conteria, até, traços de alguma contradição. Não é, porém, raro que nos deparemos com exemplos destas naturezas e magnitudes. O Escritor, quando é escritor de facto, é muito mais do que um. Na mesma pessoa coabitam várias, que vivem segundo certos padrões, convivem com sensibilidades várias e nem sempre uníssonas, pensam e passam ao papel segundo métodos, critérios e ritmos que lhes são próprios. No caso concreto, não é, na verdade, fácil apresentar este homem a quem a vida foi madrasta, que a ela reagia com um misto de revolta e melancolia, e que foi Escritor, Poeta, Cronista, Polemista, áspero na crítica, pedagogo no convívio, inteiriço no carácter e visceral inimigo do compromisso.

Foi perante a dificuldade, senão mesmo a impossibilidade, de sermos adequadamente isentos que procurámos tirar partido de circunstância importante, embora não isenta de riscos: uma certa proximidade afectiva e intelectual a Tomaz de Figueiredo, por ser eu a sua filha mais velha. Riscos que António Lobo Antunes sintetiza, certeiro e com a simplicidade que actualmente só ele sabe alcançar: «Creio que era Scott Fitzgerald que dizia que não se pode escrever a biografia de um escritor porque é muita gente... Um escritor é muitas pessoas ao mesmo tempo». Por isso, a solução que encontrei: pôr em prática o recurso exaustivo aos escritos e anotações de meu Pai, dar-lhe voz, deixando que seja ele a auto-descrever-se e auto-bibliografar-se.

 

O Soneto da Minha Dor

Eu que no princípio era um optimista
olhando a vida só pelo que tem de são
bem cedo mergulhei na vaga confusão
de treva onde se perde, incerta, a minha vista. 
E aprendi a ser irónico e trocista
a considerar o Bem como um conceito vão
e não enxergo nada nada desde então
que mereça um olhar do meu olhar de artista. 
Tudo é vaidade, fumo negro, sombra vaga
no temporal do oceano escuro desta vida
que vai quebrar, não sei em que remota plaga.
- Como dizias bem, ò Salomão, meu Sábio,
não há nada que valha a náusea incompreendida
no rictus indiferente e crasso do meu lábio. 

Coimbra, 1923

 

traços bio-bibliográficos

Nasci acidentalmente em Braga, a 6 de Julho de 1902. Considero-me e quero-me de Arcos de Valdevez, para onde fui de poucos meses, terra minha pela memória e pelo amor.

Foram meus pais: Gustavo de Araújo e Silva de Figueiredo e Dona Maria da Soledade de Azevedo Araújo Costa Lobo e Mendonça. Sou, de nome oficial: Tomaz Xavier de Azevedo Cardoso de Figueiredo. Tenho, de antepassados consanguíneos literários: Garcilazo de la Vega, Vitória Collona, Sá de Miranda, Theodoro de Sá Coutinho (Amigo do Abade de Jazente e com uma Silva integrada nas Poesias daquele), D. João de Azevedo (Romancista, Poeta, Dramaturgo e escritor político, lembrado e exaltado por Camilo em No Bom Jesus do Monte, Boémia do Espírito, Memórias do Cárcere, Esboços de Apreciações Literárias), Maria Amália Vaz de Carvalho, Eugénio de Castro, o Historiador Luiz Gonzaga de Azevedo, meu tio, e o Arqueólogo Félix Alves Pereira, meu primo, entre outros. Devo trazer no sangue uma concentrada peçonha, e, na mesma, benção literária: uma fatalidade de pesadelo.

Cursei preparatórios nos colégios jesuítas de Los Placeres e de La Guardia. Frequentei as Faculdades de Direito das Universidades de Coimbra e de Lisboa, licenciando-me nesta.

Sobre a influência de Coimbra na sua obra, e ao contrário do que é corrente, Tomaz de Figueiredo afirma, com a peremptoriedade de um carácter que manteria até ao fim da sua vida:

Influência, nenhuma. Quando fui para Coimbra já era o que sou e morrerei: desrespeitoso de lugares-comuns, de pensamentos em segunda – ou milésima cabeça. Encontrei-me em Coimbra, quanto Coimbra se encontrou em mim, e de lá não saí nem saio. Porque chamo a Coimbra – assim a vejo – a terra da Mocidade, e nada tem com a idade esta Mocidade. Presenças coimbrãs na minha obra, muitas. Pois se é uma obra de falta de respeito a quanto mo não merece!

E acrescenta: Passeei em Coimbra com o chamado grupo da Presença, do qual em verdade não fiz parte, umas vezes aceitando e outras recusando, outras, até, ensinando e guiando, pois, independente e selvagem como era e me conservo – por graça de Deus! -, impossível deixar-me arrebanhar, aceitar qualquer diácono ou pontífice.

De interesse será recordar o que, a propósito, escreve Bigotte Chorão: «Tomaz de Figueiredo é coevo da geração da Presença (a revista onde só uma vez colaborou), geração que retrata nesse roman a clef que tem por título Nó Cego, em que, sob nomes supostos, aparecem protagonistas como José Régio (Solas), João Gaspar Simões (Lucas Pires), Edmundo de Bettencourt (Alberto da Câmara), António de Navarro (Abraão), Branquinho da Fonseca (Albino Fontes), Fausto José (Félix). Ele próprio, Tomaz de Figueiredo, se auto-retrata sob o nome de Francisco de Sá. E um poeta mais velho, mas que sobre a geração da Presença exerceu indubitável magistério, Afonso Duarte, aparece no romance como Manuel Filipe. A própria Presença é designada por Sempre, enquanto publicações também coimbrãs, e que, por assim dizer, a anunciaram, como Byzâncio e Tríptico, se chamam Zimbório e Álbum. Da geração da Presença, Tomaz de Figueiredo, como Vitorino Nemésio, não é, porém, um escritor presencista, quer dizer, não fazia inteiramente seu o ideário da revista. Não que ficasse indiferente à proposta de Régio de uma literatura mais viva que livresca, nem que se fechasse à modernidade que fosse tentativa de renovação dos cânones clássicos. Frequentava os clássicos, conhecia melhor Vieira do que Proust, mas lia também escritores modernos, aqueles que não se contentam de representar sempre o triste papel de epígonos.»

Mas, continua Tomaz de Figueiredo no desfiar da sua vida: Os cargos oficiais que desempenhei, tão exteriores a mim, considero-os violência da vida. Comecei por notário em Tarouca, onde vivi os três únicos bons anos burocráticos, porque lá um rio, o Varoza, ao tempo virgem de pescadores à pluma, do qual arranquei muita centena de ricas trutas. Igualmente naqueles montes à roda enxameavam as perdizes, aí me regalando e matando o segundo vício hereditário. Isto porque, afora a possível vocação literária e, talvez, a musical (fiquei-me em medíocre pianista, que a estupidez do Direito roubou-me ao piano), somente o desporto me interessou. A caça, a pesca, a natação, o foot-ball, o ténis, o box, o jogo do pau... Mens porventura insana, in corpore sano!

O Soneto Lamentoso do Notário-Poeta revela bem quanto lhe era pesada e constrangente a sua vida profissional.

 

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Fiz hoje uma escritura. E toda a lei vigente,
em cláusulas sagazes nela foi contida.
Antes de compreender a transacção requerida
o cérebro ferveu-me – estertorosamente. 
Os outorgantes vis, - cheiravam a aguardente,
- era uma questão de água e servidão devida!
Queriam esfaquear-se. Eu disse-lhes que a vida,
valia talvez mais que regos e nascente! 
Assinaram por fim. E julguei-me liberto.
Mas eis que um lavrador, fazendo-se de esperto
achou salgada a conta, armando novas querelas. 
E fechei o cartório e, muito chateado,
retirei a pensar no meu destino errado,
eu, que pensei nascer, para escalar estrelas...
Tarouca, Novembro de 1934

De Tarouca, com passagem de poucos meses pela Nazaré, vai Tomaz de Figueiredo notariar e residir em Ponte da Barca, bem perto da sua amada casa de Arcos de Valvevez, onde seus pais ainda viviam. No entanto, volvidos dois meses, morre-lhe o pai – e a Casa de Casares fecha-se, sendo apenas habitada nos verões. É sua mãe que, já de certa idade, vai viver com o filho, nora e netos na vizinha vila de Ponte da Barca, onde a família se instala.

Em 1937 encontra-se o escritor a exercer funções de Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Ponte da Barca, cargo que, de «motu próprio» deixaria ao fim de quatro anos. Se no acto de tomada de posse havia afirmado: Aqui estou! Aqui estou à frente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Ponte da Barca, lugar que não ambicionei ou desejei, e com doloroso, muito doloroso sacrifício consenti em aceitar... Se tivesse o dom dos milagres, logo faria surgir um bairro económico para as classes pobres, começando assim a obra que seria grata ao meu pensamento e à minha sensibilidade - a obra social que hoje mais do que nunca se torna instante. Não sei fazer milagres, e os cofres do Município... Os capitais de que disponho são a rectidão e a boa vontade. Trabalharei, se for possível trabalhar... Não serão tomadas em consideração petições apresentadas por segundos... significam estas palavras que o caciquismo está de férias...

Numa das cartas - e várias foram - endereçadas ao Governador Civil de Viana do Castelo a solicitar a sua demissão pode ler-se: ... não mencionarei, por inútil, os desgostos que o desempenho do lugar confiado me acarretou... Nada fiz de materialmente útil e proveitoso - tenho o amor da verdade! - mesmo por ser difícil fazer-se qualquer coisa à frente de um município de tão minguados réditos. Suponho ter conseguido o fim especial para que V. Ex.ª me chamou - o de pacificar o concelho. Lealmente, pelo menos, procurei cumprir...

Em Ponte da Barca, inspirando-se em figuras locais, inicia o seu romance Fim, cujo teor o tornava impublicável na época, e que, talvez por isso, deixa inacabado. Mais tarde, recuperará alguns capítulos para o seu projectado Riso na Toca do Lobo. Só quando se iniciou, sob a égide da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, a edição das Obras Completas de Tomaz de Figueiredo, ganhou cabimento recuperar o texto original e integrá-lo no volume que contém A Toca do Lobo, A Noite na Toca do Lobo e apontamentos e esboços relativos a romances que, no seu conjunto, constituiriam o Ciclo das Tocas.

Em Maio de 1941 é requisitado pelo Ministério da Economia ao Ministério da Justiça e vai para Lisboa ocupar o posto de Vice-Presidente da Junta Nacional dos Resinosos. De igual modo, esta nova ocupação, que levou a sua família a deslocar-se para a capital, é-lhe violência da vida. E, assim, em folha manuscrita datada de Outubro de 1942, deixa o seu lamento: Nunca fui nem hei-de ir num barco à vela, entre o azul do céu e o azul do mar, deixar que o meu sonhar fosse palpável, seja real sem que deixe de ser sonho. Nunca o vento do largo há-de tostar-me a pele, nem uns olhos também azuis me olharão com amor. Nunca hei-de ter licença para ser o que sou, só hei-de ter a licença camarária para ir dentro de um caixão, com todos os meus sonhos prisioneiros lá dentro, misturados com o fedor de um cadáver.

E, no entanto, viver em Lisboa passa a ser-lhe não apenas grato, mas verdadeiramente essencial: Só em Lisboa achava com quem conversar, trocar impressões, idear controvérsias, em suma, viver e conviver de modo intelectualmente activo, quer escrevendo em jornais e revistas, quer tomando parte em algumas tertúlias lisboetas importantes e interventivas na época, cujas histórias se encontram ainda por escrever. E, na verdade, como poderia passar sem conviver com quem falasse, não necessariamente e sempre a mesma linguagem, mas, antes, a mesma Língua?

Em Setembro de 1947 termina funções na Junta Nacional dos Resinosos, de novo regressando ao notariado que passa a exercer em Estarreja. Desta vez, a mulher e os filhos, já então a estudar em Lisboa, não o acompanham, e a adaptação a Estarreja apresenta-se-lhe, inicialmente, bastante dolorosa. A separação da sua filha mais nova, de dois anos, fica-lhe gravada num misto de desgosto e revolta, por várias vezes a evocando, tanto na sua poesia, como dedicando-lhe a Gata Borralheira, numa prosa eivada de dor e crítica mordaz e impiedosa.

Em Estarreja encontra um novo «hobby»- a fotografia - onde privilegia as paisagens da ria, a figura do povo da região e uma ou outra incursão na focagem do surrealismo, expondo obras em locais vários e obtendo diversos prémios.

Mas, se em Tarouca e em Ponte da Barca, o seu espírito idealista e desprendido do «prático» podia deixar ao largo as preocupações materiais - a sua mulher, bem mais pragmática, desses aspectos se ocupava a contento - em Estarreja, só, vai actuar com o desinteresse de sempre, entregando esses detalhes, que considera mesquinhos, aos ajudantes notariais que, mais do que subordinados, julgava amigos dedicados, por isso limitando a sua presença no Cartório aquando se tornava indispensável orientar e presidir à celebração dos actos forenses mais importantes. Como desde sempre, poeta e escritor por missão - assim se considerava -, era aos seus escritos que desejava dedicar todo o seu tempo, estruturando-os, apurando-os - despiorando-os, como ironicamente dizia -, perseguindo a perfeição que tanto desejava alcançar. E na época própria retornava, com a família, ao seu Minho para caçar e pescar, as suas maiores paixões depois da escrita e da Língua Portuguesa. As férias do Natal e da Páscoa conduziam-no à sua casa de Lisboa, à tertúlia da Brasileira do Chiado, aos encontros à porta da Bertrand, ao contacto com os seus iguais.

E foi deste modo, confiante e incauto, que o «desleixado poeta» se viu envolvido num processo de inquirição, acusado como conivente pelos «amigos» ajudantes do Cartório que, abusando da sua confiança, sobrecarregavam, em benefício próprio, as custas dos diversos actos notariais. Sujeito a um muito rigoroso inquérito, em cujo decurso o seu carácter altivo e independente não conquistava a simpatia dos inquiridores, ele, que considerava que o seu nome, a sua honra e dignidade constituíam penhor suficiente para o afastar liminarmente de qualquer suspeição, quebra psicologicamente, entrando em depressão profunda.

A conselho médico é internado em instituição do foro psiquiátrico, o que, em vez de lhe restituir a saúde, tende, ao contrário, a agravá-la. Esta tão violenta vivência, vai, no entanto, permitir-lhe, mais tarde, retratar em algumas das suas melhores e mais pungentes peças de poesia, a dor revoltada e o ambiente que só com os seus versos partilhava.

Ao fim de dois anos, que o deixarão muito afectado, e, entretanto totalmente ilibado de toda e qualquer conivência com o ocorrido no Cartório de Estarreja, pede a reintegração no mesmo Cartório, logo solicitando, como não será difícil de compreender, a passagem à reforma, que lhe é concedida com todos os direitos inerentes. Para o poeta, ainda afectado por grave depressão (melancolia), estes novos, ainda que breves, tempos de Estarreja, assemelham-se-lhe a um tempo de morte, de morto vivo. Como escreverá João Bigotte Chorão, «Liberto do papel selado, restituído à vida, pôde, enfim, Tomaz de Figueiredo dar-se a tempo inteiro à sua vocação literária, que o salvou a ele e enriqueceu a nossa literatura de uma obra densa de prosa e drama».

Os dez últimos anos da sua vida são passados na Lisboa dos seus amigos – e muitos são. Em outro lugar se divulgará a estrutura e comentários que dedicou à sua ideia de instituir um prémio literário que, a ser concretizado, se intitularia Prémio Brasileira do Chiado. Projectado para ser atribuído anualmente, consistiria, não se tratasse de um prémio com o nome de um café particularmente significativo da vida intelectual lisboeta, num bife com dois ovos a cavalo. A lista das personalidades participantes na atribuição de um tal prémio, na sua maioria frequentadores mais ou menos assíduos da Brasileira, é elucidativa da latitude e diversidade do universo de relações em que a sua presença era aceite e respeitada. Mas, evidentemente, o «mundo intelectual» português é o que é, vindo a propósito recordar uma sua frase, proferida poucos anos antes da sua morte : vivemos politicamente sob uma ditadura de direita e culturalmente sob uma ditadura de esquerda.

Nem por isso, porém, alcança a paz, sonhada e desejada, a paz que, por fim só acreditava encontrar no regresso à sua Casa de Arcos de Valdevez – a casa da Vila, grande, rectilínea e de paredes duras, graníticas, um pouco como ele próprio.A essa casa onde vivem as suas doces recordações de infância e de juventude, os primeiros desencontros com um mundo que temia ser-lhe, senão adverso, incoincidente com os seus valores éticos. Mas, sem dúvida alguma, paredes e espaços povoados pelas sombras-presenças vivas daquelas meninas-Donas, as suas tias, tias solteiras, outras mães no amor que lhe haviam dedicado e que retribuía com pertinácia, tanto na sua prosa como nos versos, sempre, sempre, no pensamento – os seus mortos sempre vivos.

 

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Os Defuntos Fieis
Eis-vos aqui. De sempre, eis-vos comigo,
aquentando-me ao bem do vosso amor
firmado em mim aquele olhar antigo
que viu em mim a mais amada flor. 
Que bem me sabe na alma o rumor
do vosso tão fiel falar amigo!
Não perdeis uma sílaba de Dor
do silêncio de tudo o que vos digo. 
Animais-me e velais-me. Em vosso lenço,
goteja a angústia em sangue do que penso,
nele os meus ofegares deixo cativos. 
Ó mortos da Família, a vossa voz
oiço que fala. É ela. Vem de vós,
mortos que sois meus verdadeiros vivos!

 

Tomaz de Figueiredo acalentou, na verdade, o sonho de, tal como Diogo, a personagem central de A Toca do Lobo, envelhecer na casa da serra, em Bravães, ou nos Arcos, na Casa de Casares. Mas tal não lho concedeu a vida, que a morte – morte de coração – lhe deu antes de tempo.

Tomaz de Figueiredo morre, em Lisboa, em casa, a 29 de Abril de 1970. A 6 de Julho faria 68 anos. Sentidamente, recorda Bigotte Chorão: «...o corpo foi dado à terra em Arcos de Valdevez, no cemitério de São Bento. Mal chegou à câmara-ardente, o Padre António de Magalhães (que parecia trazer ainda no rosto o espanto de algum diálogo sibilino com Pascoaes ou com Leonardo) entrou de cantar com uma veemência e uma convicção como só a fé as pode inspirar - a fé que faz violência aos céus para que se abram a quem muito sofreu neste mundo.»

 

alguns traços do percurso literário

A actividade literária iniciei-a num jornalzinho de Arcos de Valdevez, «O Realista», revoltando os senhores de lá com académicos sonetos, em parte audaciosos. Fui sentenciado um tolo e um nefelibata. Algum dos senhores sabia este palavrão, resumo de quanto não podia entender. Aconselhavam-me Vítor Hugo e uns poetas confidenciais da terra e talentos que arrelampariam o mundo, se por suma desgraça os não tivessem matado as bebidas brancas e a sífilis a dobrar - hereditária e adquirida, quatro cruzes -, outros infortúnios de bom tom, síncopes e apoplexias em eleições da Santa Casa da Misericórdia e da Confraria de Nossa Senhora da Peneda, tombos de éguas aluadas que escutavam relinchos de garrano perseguidor.

Foi no semanário de Letras, «Fradique», do meu inesquecível Thomaz Ribeiro Colaço, e daí a pouco chamado «o jornal dos dois Tomazes», que efectivamente me anunciei, com novelas e contos que nem todos hoje arredo. Por fim, em 1947, aos quarenta e cinco anos (está feito!) publiquei o primeiro livro, AToca do Lobo, premiado com o Prémio Eça de Queiroz, romance de que hoje sou vítima, pois, seguido de outros, creio que não abaixo, ele é o que muitos afirmam acima de tudo. Vieram depois Nó Cego, Procissão dos Defuntos, Uma Noite na Toca do Lobo, Guitarra, Conversa com o Silêncio, A Gata Borralheira, que me trouxe o Prémio Diário de Notícias, os dois volumes de Dom Tanas de Barbatanas, Vida de Cão, Teatro I (três peças) , o sétimo volume das minhas Obras Completas, em publicação. Ao facto da minha aparição tardia devo que esperem, inéditas, aí duas dúzias de livros: de Ficção, Poesia, Crítica, Estudos de Linguagem, História local, Memórias, que irão sendo impressos com a regularidade estabelecida pelo contrato de edição. De Poesia, até hoje, publiquei apenas o livro Guitarra, apesar de que, pela extensão, deva a minha obra poética ser a maior de agora. A partir de 1967 começarei a publicá-la. De momento, apuro um romance, Noite das Oliveiras, que aparecerá pelo próximo Novembro, seguindo-se-lhe a revisão de um volume de contos, Tiros de Espingarda, a aparecer em Abril do próximo ano. A linha da minha coerência, ética, moral e social, firmei-a tão natural e essencialmente como ao nascer respirei. Ela e eu somamos um todo e, para o que vejo, não estou triste. A minha obra, por conseguinte, a esse todo a subordino. Tenho enjeitado muito prato de lentilhas e até sacos de oiro, penachos e automóveis. Não troquilho as minhas ideias e os meus amores. Dou-as ao que penso e amo, apenas, e sou firme no pensar e no amar.

 

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Sobre o que seria o ciclo das «Tocas» diz Tomaz de Figueiredo em Umas Poucas Palavras do Autor na 2ª edição de A Toca do Lobo: ... Este livro primeiro da Toca do Lobo... O segundo, Uma Noite na Toca do Lobo, ... Os que faltam do regresso à Toca do Lobo... Uns cinco haviam de ser...

Seriam As Meninas da Toca do Lobo, a partir de uma formosa, única e verídica história de almas do outro mundo... As meninas ainda chamadas meninas, pelos oitenta anos, que o povo sabe, e ele só, tratamentos de carinho a dizerem com respeito...

“As meninas velhas da Toca do Lobo”, a tia Francisca e a tia Mariana, que, sem as dores da maternidade - apenas sem essas -, foram também mães do solitário... Outras meninas velhas de antes, que deixaram balões, capelinas, botinas, guarda-solinhos de renda e cacheira alta, ou a de cana-da-índia, dobrada em ângulo recto que acima de cem anos abriram em perto de raso, ou a de varinhas metálicas doiradas e torcidas... O espólio de todas as meninas a falar... As Meninas da Toca do Lobo...

Seria A Galiza na Toca do Lobo... O ambiente de milagre e nunca amarelecida esperança que foi o do Minho raiano e ribeirinho, fidalgo e fiel, meio Miguelista meio Maria da Fonte,... quando Aquele nunca morto - e hoje, até, mais que vivo, imortal - de nome Henrique de Paiva Couceiro, segundo Condestável, sem mácula e segundo Dom Sebastião,... que há-de voltar...

 

 

Seria Riso na Toca do Lobo... O riso castigador de quantos, esquecendo-se de quem protestavam ser assim mostraram que não o eram, e havidos abaixo de tinhosos pela gente da Toca do Lobo... Pulhices, bojardas, e historietas patuscas daqueles tais...

Seria A Canalha na Toca do Lobo... Nunca a do sentido mau, esta canalha, tão-só a do popular sentido puro: a rapaziada pobre e sã - fidalga! - que veio e pintou o raio com o menino sem irmãos...

Seria Vento Sul na Toca do Lobo... o vento havido por núncio de chuva pegada e que traz, de mais de légua, o dobrar a fieis defuntos... O vento a lembrar a sementeira de ossos de uma família por todos os cantos da Terra... A sementeira que vai além dos ossos: de vontades, sonhos, heroísmos, de sacrifícios e sentimentos, de almas... A sementeira de Homens...

Estes já pensados, já vistos e ainda faltosos livros da Toca do Lobo, todos eles aqui, e todos que certamente aqui levarei, que nunca a pena amorosa e mediúnica dirá...

 

 

o centenário do nascimento do escritor

O centenário do nascimento de Tomaz de Figueiredo permitiu levar a efeito, envolvendo cada vez um mais extenso e significativo universo de personalidades e instituições, um conjunto de iniciativas que conduziram ao resultado que os familiares do escritor, actuais possuidores da Casa de Casares, pretendiam há muito alcançar. Como já antes se referiu, a reunião em Casares, de grande parte do espólio literário e de objectos e adornos que foram parte integrante do quotidiano do escritor, tornou possível, ainda que, como se compreende, de forma selectiva e controlada, abrir a Casa àqueles que, justificadamente, revelassem interesse em se aproximar do que fora a vivência sentimental de Tomaz de Figueiredo. Não se tratando de organizar e disponibilizar indiscriminadamente uma «casa museu», fria e convencional - portanto, morta -, procurou-se, antes, apresentá-la como um instrumento pedagógico com interesse não limitado à esfera do simplesmente local. Foi assim que, com alguma regularidade, a Casa de Casares passou a ser objecto de solicitações de visita por um já numeroso elenco de pessoas e instituições, nomeadamente grupos de professores e alunos, em regra das disciplinas de português das escolas de ensino secundário, professores universitários, alguns escritores, associações de índole cultural e social. Ao mesmo tempo, e com reflexo na vida universitária, realizaram-se exposições bibliográficas e seminários de estudo e reflexão sobre a obra do escritor, de tudo resultando o aparecimento, e, nalguns casos, a edição de estudos e teses de doutoramento centradas, quer no conjunto da sua obra, quer em livros específicos ou perspectivas que a enformam.

 

Deste, chamemos-lhe assim, movimento gerado em torno da efeméride acima mencionada, resultou, também, o empenhamento da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, no recrear, na Casa das Artes, a Biblioteca Municipal Tomaz de Figueiredo, nesse contexto inaugurando, junto à mesma, um baixo relevo da efígie do seu patrono. Ainda no âmbito local, igualmente o estabelecimento de ensino secundário dos Arcos passou a designar-se Escola Secundária Tomaz de Figueiredo. E a realidade tem demonstrado que tal movimento tende a continuar, e de múltiplas formas, tanto no âmbito da Casa das Artes local, quanto no da participação de Universidades como as de Coimbra, de Aveiro, Fernando Pessoa e do Minho. Anote-se, por último, a existência de um programa de novos eventos que os familiares do escritor se propõem levar a cabo e que envolverá entidades, tanto de cariz cultural, como o Lion’s Club de Braga, terra natal do escritor, quanto de natureza universitária.

Escusado será salientar o papel decisivo que, em todo este «renascer» de Tomaz de Figueiredo, tem vindo a desempenhar a Administração da Imprensa Nacional - Casa da Moeda , então presidida pelo Dr. António Braz Teixeira, ao tomar a decisão de publicar na sua Biblioteca de Autores Portugueses as Obras Completas de Tomaz de Figueiredo.

 

Maria Antónia de Figueiredo

 

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