Tomaz de Figueiredo a Vasco Botelho Amaral a [dia e mês desconhecidos] de 1945

Exmo Senhor

Só ontem me chegou às mãos a carta
de V.Exª, à minha espera na redacção
do “Aléo”, onde por ora só raramente vou.
Cativam-me as palavras de V.Exª
a apreciação que rabisquei sôbre “Cultura
Defesa e Expansão da Língua
Portuguesa “ mas creia V. Exª. que
pouco mérito há na franqueza
com que escrevi. Caceteiro, ou perto
disso, que por todos os que me conhecem
sou considerado, o mérito que possa
ter o que escrevo, antes estará no
que logro vencer-me para não ser mais franco.
De bom grado e até com gôsto falarei
sôbre o Novo Dicionário das Dificuldades
mas há-de V.Exª permitir-me que espere
a passagem do Aléo a semanário, dificultada
por cansativas formalidades. Menos
ineficientes será o que disser, escrevendo
num jornal já com oficial categoria de jornal,
e com maior expansão.

E fique também certo de V.Exª
de que atentamente o lerei, para aprender…
Assim muitos quizessem lê-lo.
Agradecendo a prometida gentileza
da oferta dum exemplar, pode V. Exª
envia-lo para a minha morada, tendo
no entanto orgulho de informar V.Exª de
que o “Aléo” prosseguindo a orientação
que adoptou, não impõe
aos autores que desejem ser apreciados
o imposto usual, pois
adquire os livros que julga
merecedores de crítica para que (louvar
ou castigar passa com absoluta independência
acerca da informação de V. Exª sôbre o
apoio que os Altos Poderes prometem
à causa do Idioma, fico à espera bastante
céptico. Estarão eles dispostos a condicionar
a profissão de jornalista, criando para
tânto uma escola de jornalismo, que
de vez arrume com o deslavamento dos
“chumbados” no 5º ano de liceu
ceírem no jornalismo, como em barril de lixo?
Vertical:
E estarão os Altos poderes dispostos e
habilitados a darem exemplo
a redigirem o
Português o Diário do Governo?

 

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Vasco Botelho Amaral.