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Tomaz de Figueiredo a Tomaz de Figueiredo a 20 de Janeiro de 1961Tu, meu filho.Lisboa, 20 de Janeiro de 1961 Tu não te lembras, filho. Houve uma noite de Novembro em que não me deitei. Chovia, meu filho. Assentado a beira da cama, tua mãe deitada queria que nem por um instante deixasse de lhe apertar a mão. Reparias alguma vez na minha mão? Eu na de tua mãe? A minha pesada ou leve, se esbofeada ou apagava, o mas de dedos que poderias ainda ver como se os visses, olhando uma fotografia de tua Trisavó Maria Rosa, uma incrível fotografia que lembra um quadro, um Ingres. Procura-a na gaveta dos retratos do contador que trouxe para Lisboa, e de teus bisavôs, casa da Ponte. Afirma-te bem nas mãos da tua trisavó e hás-de lembrar as minhas. As mãos de tua mãe? Dessas, avaria pela minha aliança das de abrir, moda então, com a data do casamento e nome de tua mãe. A aliança de tua mãe ajustava-se interiormente à minha, tão justa que o padre, ao casar-nos, cuidou ver uma só que teria a outra caído. A cada instante, nessa noite de Novembro, beijava a mão de tua mãe. Espapada uma cadeira uma mulher gorda lia um livro, em o Profeta Branco, dum Hall Caine, e dizia que tudo corria normalmente. Por volta das cinco da manhã veio um médico e foi para a cozinha ferver instrumentos cirúrgicos, depois do rabisco duma receita, beijada a mão pálida e humedecida que não queria deixar a minha, saí a aviar. A uns trinta metros, da casa havia e talvez ainda haverá uma farmácia, que por grande sorte me saiu das de serviço. Toquei a campainha entremesiado e a chuva, resguardado só pela gabardina, porque naquele tempo, ainda heróico, só velhos e gente patega usavam guarda-chuva. Olha o teu Pai, meu filho, a transigir com um guarda-chuva, a levar do bengaleiro o guarda-chuva do pai de tua mãe, que, naquela ocasião, talvez não tomaria a ramos de mortes a falta de respeito, a indelicadeza - desconsideração, abuso de o levar, de o expor a alguma rabanada de vento galguei que o revirasse. Segunda, terceira vez o botão da campainha. Dentro, ninguém se mexia. E tua mãe á espera e a sentir a falta da minha mãe…A chuva já se me encaleirava nas abas do chapéu, e, curvando-me, escorria. Encostei o dedo ao botão e toquei sem parar. Para além do taipal e parecia que muito longe, a campainha tocava. O farmacêutico ou dormiria sono de pedra ou cuidava garotice. Por detrás do vidro, li qual a farmácia de serviço mais próxima e desisti daquela. Táxis, naquele tempo, não eram como hoje, tantas como as moscas, e, então àquela hora, nem morta nem viva. Um passou, porém – “Depressa! - disse ao chofér. – À farmácia tal! Uma pessoa em perigo! Ali naquela farmácia ninguém dá sinal!” O homem resmungou que era sempre assim, que raios partissem a vida, porque também teria novidade em casa, a mulher talvez de parto. Na segunda Farmácia abriram logo e, daí a nada já subi as escadas da casa dos pais de tua mãe. “Então?” perguntei. Entrado no quarto, logo saí. O médico rabiscara nova receita. Que fosse pelo ar, que um minuto de atraso podia valer a vida de tua mãe. O dia principiava a nascer. Nunca eu na cidade vira clarear a alvorada, só pelas serras acima, de espingarda ainda à saudoleira, descuidado, não como ali, opresso. Continuava a chover, meu filho. Também nunca eu tinha visto sem ninguém as ruas da cidade. Um minuto podia valer a vida de tua mãe. Tornei à primeira das farmácias, lembrando-me que já a abriram, e toquei a campainha, uma, duas, terceira vez, quase de seguida. Sempre, distante, como para além do mundo, o sumido repique abafado.
Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Tomaz de Figueiredo. |