Tomaz de Figueiredo a Tomaz de Figueiredo a [data desconhecida]

Meu Querido Tomaz

Filho, a doença da perfeição atrasou-
-me a resposta à tua tão
querida carta. Sim, essa doença que
só a terra fria há-de curar e que
tem sido a desgraça da minha vida.
Será o óptimo inimigo do bom, [i],
mas só o óptimo pode satisfazer-
-me. Neste caso, o óptimo receberes
a minha resposta junta ao meu
último livro, o segundo e último volume do Dom Tanas, que te
segue por este correio. Dar-te-há para
uns dias menos aborrecidos, porque,
decerto, hás-de sorrir de vez em
quando.
Eu a pensar em mandar-to, na
opinião que dele farias, e, entretanto,
ao encontro dos teus


pensamentos e sentimentos, outros
semelhantes, que de sempre e a
cada instante me apertam o
coração. Muitos, muitos, que espero
deixar-te um romance (vá lá a
palavra), no qual até à morte
lerás quanto me enches e afogas
o pensamento. Hei-de, sim, com todo
o meu coração, o romance do
meu menino pequenino e do meu
menino homem. E com a maior
compreensão, crê.
Olha, estamos em Tarouca. Apanhas
uma bronco-pneumonia, no tempo
em que ninguém falava de anti-
bióticos, em que bronco-pneumonia
costumava significar “morte”.
O Dr. Victor receita-te – última e


única esperança, um enfaixamento
de mostarda: fogo molhado. E tu
és enfaixado, e é ao meu
colo que estrebuchos, queimado
e a chorar, aos gritos. E eu
forço-te a essa fogueira que
te salva.
Olha, um dia, já na Barca, estás
a ver queimar vides para uma
braseira. De repente caí-te pelo
pescoço uma brasa. E tu aos
gritos. E eu a despir-te a toda
a pressa, mas pressa que era
muito vagar para a queimadora
de que, penso, ainda guardarás
uma cicatriz.
Olha, quando estivemos na Nazaré,
lembrar-te-hás do que me perguntavas


mal eu chegava a casa? “Ó pai,
trouxeste torrão?”
E eu trazia torrão, o torrão de
açúcar que deixava de deitar
no café, nesse tempo de açúcar
racionado. “ó pai, trouxeste
torrão?” Estou a ouvir-te. Eras
tão gordinho, tão bonito!
Nisso das longarinas do papagaio,
estás enganado. Foi em Âncora
que se passou. E lembrar-te,
em Âncora, de beijos
mina de beijinhos que eu encontre-
rente a um penedo, ao pé
do Forte da falta? E de, uma
vez, a Mitó e, tu, comigo,
termos sido apanhados por
um tal nevoeiro, ao pé do mar,
que, voltando, vos peguei a cada


qual pela mão, sem vos largar,
pois a menos de dois metros já
não se via? E da Mãe, à vossa
espera?
Acho que, principiando a escrever
esse teu livro, terei para umas
quinhentas páginas. Tudo me
ficou apegado ao coração, a
minha desgraça, o coração. Vejo-te ao pé de mim, da última
em Bravões. Estou a ver a perdiz, de
través. Já tinhas uns dezassete
anos, então.
Que mudo és para mim, Filho.
Que mundo a Mitó, também,
e a Maria Rosa. Essas terão
o seu livro, também. Hei-de
deixar-vos, em sangue, o coração.


Nunca mais teria fim esta
carta.
Lembro-me agora duma coisa.
A edição especial dos meus livros
(papel de luxo, encadernação
de seda dez exemplares para
mim, conforme o contrato) leva
uma ilustração. Os quatro primeiros
foram ilustrados por Infante do
Carmo, Maria Arozinda, Artur Bual e
Noémia Cruz, nomes que talvez
todos já desconheças. Pois muito
gostaria que fosse o quinto, esse
que também hoje receberás, ilustrado
por ti. Ilustras-mo? podes
mandar duas ou três ilustrações,
para eu escolher. Se não tens
papel, escreve a dizer qual deve ser.


Não achas que tive uma
boa ideia?
Claro, não é coisa por que possa
esperar meses, mas, decerto, lido
o livro, farás isso um pronto.
Gostava também me dissesses
se o livro te agradou. Crê que
a mim me agrada. Sabes
em quanto tempo escrevi os
dois volumes? em oito meses,
e a mesa do café, a conversar.
Doente, doentíssimo, como ninguém,
nem os médicos, fizeram ideia,
certamente a brutalidade
de escrever mil páginas um
tão pouco tempo dará uma
ideia do meu estado. Ah.
Meu querido Tomaz. Como foi


maltratado, incompreendido, abando-
nado.
Acabou-se, meu Tomaz. Cá
digo escrevendo, cumprindo.
Aqui teus também uma
carta, meu Filho, meu saudoso
Filho.
Muitos beijos e a bênção do

Teu Pai,
Tomaz

 

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Tomaz de Figueiredo.