Tomaz de Figueiredo ao Presidente da Associação Académica de Coimbra a [data desconhecida]

Exmo Senhor Presidente
da Associação Académica
Coimbra

Quando há oito dias junto de um receptor
da TSF seguia ansioso o desen-
rolar do encontro Académica - Benfica,
a saudade desses tempos que vão sendo
absurda e desesperadamente tão
recuados desses tempos que são afinal
tudo o que resume a palavra mocidade,
irremediavelmente fugida
– quando, dizia, do receptor
a minha alma estava não ali, mas
junto da alma da academia, a saudade
sugeriu-me uma ideia, que me apresso
a apresentar-lhe, pois me parece óptima
(perdoe!) e de bem fácil realização.
Porque não há-de a nossa Associação Académica
criar uma nova modalidade de associados,
a dos sócios da saudade, onde se agrupem
quantos por aí passaram?
Estive há uns quatro anos, uma noite
em Coimbra. Vagueei pelas suas ruas

como quem visita um cemitério. E ao passar
na Associação Académica a vontade que
senti de entrar reprimia lembrando-me
que seria um estranho, que
talvez o contínuo viesse perguntar-me o
que pretendia dali… E no entanto, embora apagada-
mente, pois que era então caloiro,
eu fui um dos que ajudaram a conquistá-la
para a Academia, na célebre “Tomada
da Bastilha” – eram ainda tempos…
volta a minha ideia.
Porque não havemos todos os que por aí
passamos, e em espírito sempre ficamos, agrupar-nos
em volta dessa Associação?
Pois não somos o prolongamento espiritual?
Eu sugiro a criação duma
nova classe de sócios, com cotização obriga-
tória mas leve, pois o que se pretende
é congregar espiritualmente a velha “malta”
dando-lhe uma ilusão, e conjuntamente
fortalecer financeiramente essa casa, dando-lhe
meios de cabalmente realizar o fim que
se propõe.

Repare vossa excelência (e a escrever “o colega”)
que uma cotização baixa é a única
forma de agrupar o maior número
que, aceite que seja a minha sugestão, eu quero
seja a totalidade.
Que extraordinária força perdida
não representam velhos!
Força de espírito e força
financeira! $ 50 centavos mensais, cobrados de uma só vez
quem não pode oferecê-los?
E quantos milhares de escudos
não iriam cair nos cofres da nossa
Associação?
A esse dinheiro lembraria eu fosse dado
o seguinte destino, ressaltavas evidentemente
quantas sugestões fossem propostas, dignas
de aceitação:

1º (reforço da Caixa da Filante. Ac., se
acaso ainda existe.

2º dotação para as obras da sede, construção
do Estádio, realização enfim das
aspirações materiais dessa casa,
de forma a dar-lhe o prestígio

a que tem direito:
3º Aquisição de obras para a biblioteca,
especialmente sobre a vida Coimbrã
(não conimbricense, revolto-me quando
os jornais vos chamam assim) e
custeio da edição
de memórias académicas merecedoras
de tal.
Isto é apenas um programa súmula, que requereria
especificação cuidada.
Convoque V. Ex.ª uma reunião geral
pois o momento em que o nome da Briosa anda em todas as
bocas é de apanhar pelos cabelos.
Depois, estamos na proximidade das férias. Que cada
um dos actuais estudantes,
munido já de boletins de inscrição, vá para
a sua Terra levar esta ideia aos antigos.
Tenho a certeza que ao iniciar-se o
novo ano lectivo pode estar já
elaborada a lista dos sócios.
Por mim, fico
à disposição de V. Ex.ª para agrupar
os deste conselho e dos limítrofes e com…

[A última página desta carta não foi encontada.]

 

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo ao Presidente da Associação Académica de Coimbra.