Tomaz de Figueiredo a Maria Ondina Braga a 7 de Julho de 1968

Querida “Confradessa”
Maria Ondina

Bem. Com muito entusiasmo lhe escre-
verei umas palavras – embora desnecessá-
rias – nas barbatanas, ou onde queira,
da “Estátua de Sal”. Parece-me,
porém, que me sobrará o tempo, quando
volte a Lisboa. Em cima das provas,
conheça que não conheça o livro – e
conheço -, é que talvez possa dar-lhe
umas palavras em que diga alguma
coisa útil. Maria Ondina deve
confiar na Maria Ondina. Possível
– certo, quando não se está abandado
em conspiração ditas literárias – que
o êxito demore, mas digo-lhe que é

certo: não lho abafam.
Quanto ao Domingos Monteiro, só
Afuroado à vista, que é homem
de sete ofícios e de catorze mulheres.
Pois afuroado será.
Tenho aqui escrito mais uns dicionários
balanço para voltar a
escrever. Irão sair no Diário
Popular e, no próximo ano, em
livro. Destemperos e brincadeiras
de quem se fila à vida com dentes
de rafeiro …
À manga espanada, à pamparona,
por aqui ando às uvas. Levantar, ao
nascer do Sol, e logo um cacho de
uvas, logo ao Trabalho. E aqui lhe
vai um abraço muito amigo do
confrade. Douro

Tomaz

[Na vertical:]
Douro -
Aldeia de Cima
7/7/1968

P.S.

Ponho aspas quanto ao concurso
do Diário Popular.
Um amigo nem, no ano passado,
mandou ao concurso um belo
couto, e nem menção honrosa,
sequer um chavelho.
Bem. Quando volte a Lisboa.
Muito lhe contarei. Também,
noutros tempos, atirei esses
barros à parede. E ganhei
histórias edificantes. Da
última vez, aí por 1954-5,
foi um concurso do Diário de

Notícias. Mandei alguns contos,
agora publicados na “Vida de
Cão”. Ganhou o concurso
um Rocha Júnior, jornalista
do mesmo Diário de Notícias.
Anos mais tarde, um dos do júri,
o Aquilino Ribeiro, ouviu-mas
frescas, em público.
Não tinha lido meia linha do
que eu tinha mandado. O grosso
da coluna ficara encalhado
num pré-júri … da Redacção.

Segunda edição do abraço,
T.