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Tomaz de Figueiredo a Maria Luísa Brasil a [data desconhecida]Sabrina, QueridaÉ curioso – é divino! – que só nas mulheres tenho encontrado compreensão (super-verdade) que tarde a conheci! Agora só há para mim duas palavras: Tarde e Adeus! E a inteligência agudíssima pelo sofrimento, pela visão de Outro Mundo diz-me que tudo quanto sofro é imaginação! Imaginação do próprio corpo são – creia que atlético aquele que diariamente nadava cinco quilómetros em água doce e que a ele próprio, automático, se tortura engalfinhado contra ele mesmo, sofro, sem curva, da total imaginação. Por isso nunca se me esgotaram as imagens! Que maravilhoso pesadelo de imagens! Basta ver os meus sonetos que sei serem belos. Estou um poeta automático, um cérebro electrónico da poesia e da prosa que, árduas coisas, ou são uma só ou cisco. O crítico literário que fui sobrevive. que fui, sobrevive. Ontem de tarde – pítia em transe – deitei-me 22 sonetos. É horrorosamente belo! É belamente horroroso! Vivo em transe. Ultrapassei a vida do homem! Já sou Infinito, Eternidade o terrível é que ando a esfarrapar-me aos olhos dos outros, ignoro-os. Já os maus me chamam “tolo dos papéis”. Sei-o. Fui um dandy, um príncipe da renascença. Tinha sempre uma [i] à mão de semear e tinha cinquenta gravatas! Que lindas gravatas! Agora, o inferno rompe-me todas as costuras: a da presença e a do traje. Adeus! Não venha cá! Eu sou só aquele que escreve esse meu retrato e não aquele que veria: já um novelo de convulsões de caretas, que sempre acabam por delíquios catalépticos. Estou firmemente convencido de que hei-de ser enterrado vivo. Enterrado vivo já eu vivo…Quero que me cortem as carótidas antes do enterro. Resumo: Psiquicamente perdido, sem remissão! Olhe que tenho pena. A beleza que a maldade humana diabólica me força a levar para a morte! Que triste país este, de verdugos, sádicos – e invejosos – que (a modéstia é uma falsidade não hesitou – burro! – em aniquilar o seu primeiro escritor e poeta!!!! Que sou eu agora? Poesia pura. Só que, nem que me esfolem, - e aqui o erro consinto que seja publicada. Fechei-me numa espera de fogo, sem janela. Estou absurdo. Sem amar, amo deses- peradamente. Sem querer, quero [i]. Sem orgulho, sou o orgulho feito carne! Sou uma avalanche que deu a des- penhar-se arrastando quanto amava e que só há-de parar no fim, em estilhaços de luz e cacos de vida. Bem! (Mal!) Acabo. Se quisesse continuar esta carta poderia ter milhões de folhas. Seria o infinito. Alma=Infinito. Beija-lhe as mãozinhas ternas, doces, vãmente consoladoras, mas feitas da seda e que as almas são tecidas, aquele que foi o Tomaz E adeus! Tem de ser. Se a mim próprio tive de dizer adeus… Tomaz [Na vertical:] Hei-de continuar a "ditar-me" poesia. Por mais que faça, não mato a sede de alma que me afoga.
Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria Luísa Brasil. |