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Tomaz de Figueiredo a Maria José Pimentel Piqueira e Silva a 21 de Junho de 1959Querida ZezinhaRecebi agora a sua carta e respondo-lhe já, despregando da cruz este mal que já não firma a letra, que só quer dormir pregada, partilhando, o pesadelo do corpo e da alma. Respondo-lhe já, porque, embora não possa dar-me a mim próprio, ao sedento de mim, do meu verdadeiro Eu, eu quero, até ao extremo das minhas forças, dar-me aos outros, eu que nasci para amar, para consolador de amarguras e de penas, para irmão dos que sofrem. Porque sempre um poeta que verdadeiramen- te o é tem sede de almas, de beijar as crianças, sabendo-se criança como elas, nem que de cabelos brancos, nem que esmagado pelas angústias, pelo tenebroso, pelo irreversível da desgraça. Direi que pelo Destino, pois que há o Destino e nem quem se lhe ferta. Porque já que podem ainda esperar – e acha pouco? – Daqueles que podem imaginar a possibilidade do bem. Quem me dera hoje padecer do que supus padecer na boa terra de Tarouca, cheio da liberdade da minha alma e a lutar, a poder lutar, por um triunfo que cheguei a ver e que somente infortúnio me roubou, me trancou, implacável. Ai dos puros, digo-lhe eu – eu que o era e sou – porque pode rastejar das profundas e picá-los a serpente do diabo. Não, Zézinha! Erga-se aos seus tacõesinhos e abra ao possível os seus olhos ainda não queimados, os olhos de quem pode ainda esperar, pois que vivem ainda no Tempo, não no longínquo pasmado. Abra-os, que ainda podem ler com gosto, e console-se com a dor boa de ler os poetas. E oiça, já que pode ouvir ainda, uns compassos de Chopin ou doutro irmão assim poeta. Arroge-se para o sonho, que sonhar é tudo. Quanto a essa gente de Valpaços, que diz materialista, é igual à de toda a parte, excepto à de Estarreja, onde há o roubo organizado, onde os ladrões, engravatados e motorizados, se ajuntam em sindicato e dão o exemplo, ora sentados na poltrona de Caifás, ora a olharem da varanda de Pilatos, e limando matinalmente os dentes, alternados, de tubarões e de crocodilo. Assim lhe falo eu, do abismo do desespero que é esta minha incurável doença mental, do da lucidez enlouquecida pelo não querer da vontade, a qual, antes de tudo, quer expulsar uma causa de que não foi culpada. Quem está ainda livremente vivo não pode queixar-se com legitimidade. A Zézinha tem na mão a felicidade e só é infeliz por não saber que a tem. Insisto em que a felicidade é a esperança, é a consciência de estar integralmente vivo. Saiba que, mais mês menos mês, vou pedir a reforma, e depois…depois, como já não sirvo para nada, como sou só nem Trambolho, será o horror dum manicómio, olé! Entretanto, vão-se acumulando desgostos e desgostos… Só eu sei. Ninguém, nunca, poderá avaliá-los. A Zézinha daria eu um conselho, o de que forcege por libertar-se do polvo terrível que é a do geral dos Registos e do Notariado. [Faltam aqui 2 páginas] das próprias almas, para o qual tudo é legitimo, até o direito de torturar, de enlouque- cer quem o serve, de lhe outorgar a pena do suplício perpétuo. Cautela com esse monstro de malvadez e estupidez que despachou pelo país uma incansável matilha de caça ao homem. Treme de saber o meu semelhante exposto à sua ferocidade e aos seus carinhos. Quem estiver ainda a tempo, fuja, porque se volveu a sua lei à lei da Selva, em que até vale tirar olhos…Em que vale roubar os filhos, o amor, a paz, tudo: o direito à personalidade, o direito a morrer sossegado. Pesam sobre mim três anos de inferno psíquico e físico: já cambaleio com vertigens. Sei dum colega, meu antigo companheiro de Coimbra, a quem arrasaram o coração e que já está debaixo da terra. Era fortíssima, atlético, mas a brutalidade matou-o. E que mais haverá? Eu, se fosse à Zézinha, fugia, a sete pés, ao menos para o Registo Civil ou Predial, que não são Repartições de Cobrança de Impostos, dos quais não se parte do princípio se até prova em contrário, de que o chefe é um ladrão, um facínora, um “canalha” – mimo que o inspector Pessanha (bacharel), pôde dirigir-me sem correctivo, porque eu estava – compreendo-o hoje – absolutamente louco: estarrecido ante a iniquidade e o arbítrio, o suplício da gota, durante quatro meses, que me queimou os nervos e o cérebro, que me deixou no bonito estado em que me sinto, que me anormalizou sem remissão, que me proíbiu de viver. vê que estrebucho sem cessar aquele que conheceu bem disposto e de fato escavado. Não pode aceitar o impossível, o absurdo. Quem o aceitaria?! A Zézinha alegre-se. Enquanto puder, com melancolia sossegada, ver um pôr-do-sol, acredite que é feliz. A felicidade está na liberdade do sentimento …e das pessoas… Digo assim, porque as minhas, a paralizaram- se, já não querem levar-me aonde eu quereria ir: a ver os filhos, à caça e à pesca, à minha amada casa dos Arcos, onde há uma fonte à sombra de laranjeiras, onde vive, penado, o espectro do menino que fui, acredite que um príncipe do ideal a quem não pesa na consciência ter alguma vez feito mal a alguém, e a quem fizeram o maior dos males. Ainda não foi ver a minha neta… o pobre idealista do meu filho, preso há sete meses, querem dar-lhe oito a doze anos de penitência, e eu não fui ainda visitá-lo. É demais! Enlouquece. E a avalanche da desgraça continuará rolando. De escrever já deixei, a não ser cartas. Ficam escritos em dez meses, dezasseis livros em que aparecerá uma tenuíssima sombra do meu sofrimento. O meu horizonte mental é da carrascos e de facínoras. Tudo me proíbem os carrascos e os facínoras hão de torturar-me até fechar os olhos de vez. Zézinha amiga, Zézinha querida, perdoe que lhe fale de tanta dor, mas deve tirar dela a convicção de que é feliz. Sabe o que tem ainda de revoltante este meu estado? Olhe. Se alguém fica debaixo dum automóvel, todos dizem: - coitado! Se alguém está tuberculoso, ou canceroso, todos lhe avaliam da doença e compreende o sofrimento. Mas, se alguém é ferido da doença invisível, pela que mina o cérebro e o queima, da que electriza os nervos todos, até os médicos, dizem: - isso é mania, mexa-se! O que V. é, é um fraco, um piegas! Mexa-se, sacuda-se! Querer é poder… esqueceu-se de que, exactamente, quem está doente, quem já não existe é o querer, a vontade. Que o essencial da vida, a vontade livre, morreu. Que resta é carne, a torcer-se na penitenciária dos nervos entrançados a incandescentes, doridos e doidos, paralizados. Que terrível fera o Homem é! Como eu queria ir ser advogado do meu filho, defendê-lo com um fogo de que ninguém seria capaz! E aqui parado, pasmado, inválido, inútil, desesperado…Aqui, assim, e a saber que o meu filho foi submetido à tortura da “estátua”, que esteve um mez um subterrâneo de Caxias… Basta, Zézinha, de queixas. De que servem? Peço-lhe muitos cumprimentos para sua Excelentíssima Mãe e Minha Senhora, e creia no seu muito amigo, mas inútil amigo Tomaz Estarreja 21/6/1959 Outra que não é carta, mas versos. Rascunho aproveitado: E a rajada, cá dentro, que não cessa! E a opressão que não passa! E esta obra da mente de [i] E esta obra de lume na cabeça! E sempre cheia da alegria a taça! E o mesmo que eterno recomeço! E o peito a ascaldá-lo esta cousaça E sempre cheia da agonia a taça E a rodar-me na ideia uma cabeça. E a vontade o fio da perseguição E o vão chamar a Deus e á Justiça E um demónio a olhar a fazer Troça! Zézinha, por hoje, adeus. Lá que peço a reforma, tenho que pedir, porque estou inutilizado para qualquer trabalho que não seja o de pensar na demência, de a compreender e descarnar, desfibrar. Depois…depois ir-me-hei consumindo, em todos os sentidos. Onde, mais ou menos, é fácil imaginar os dementes não têm família: começam por não ter nada: alheados de tudo: alienados: a fitarem, só, e a só quererem fitar os olhos desvairados, que olhem do Além dum mundo perdido o deseperada- mente do amado, do antigo céu.
Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria José Pimentel Piqueira e Silva. |