Tomaz de Figueiredo a Maria José Pimental Piqueira e Silva a [data desconhecida]

Bem,

Zézinha,

Respondo. Foi condenado à pena da pena…
Insisto em que tem de sacudir essa Tristeza sem
razão, uma Tristeza que o nada de uma
carta amiga pode consolar. Se as cartas amigas
- e tantos recebo – pudessem consolar-me, eu
seria a pessoa mais feliz do mundo. Uma
coisa é a Tristeza, outra é a doença, e uma doença
incurável, porque é o próprio ser anormalizado, o
próprio ser privado de si próprio, ou preso
de si próprio. Por mim, estou arrumado, pois
que não quero, não posso querer. Querer e amar
são sinónimos. Anormalmente, quero a dor, só
amo a dor, - tudo quanto me resta, tudo de
quanto não posso ser privado, e abraço-me a ela
como a uma cruz. Ora a Zézinha pode querer,
pode amar. Acredite que é milionária. A
Zézinha ama, pode esperar pelo Bem, e já é o
Bem sentir-se de alma livre e que pode
entregar-se: sentir-se dona da alma.
Sabe do que padeço? Do mais terrível
dos complexos: do complexo da não-culpa.

complexo do Destino, da Fatalidade. Olhe que,
enquanto de saúde, afrontei grandes desgostos, e
sempre a fazer peito, e sempre escanhoado,
e sempre de sapatos de ténis, e sempre a sentir-me
rico do maior dos bens, o da alma. Há histórias
que ficam por contar, e, hoje, eu que me supunha
romancista, veja que bem pouca o era, de bem
fraca imaginação. As mais vivas e negras
histórias passam-nas aqueles que são depositados
na ante-cova dos manicómios. Ninguém
ajuíza do que seja ser assombrado, ao mesmo
tempo, por borboletas e morcegos, e a repelir
as borboletas e a dar-se aos morcegos. Por
mim, faço ideia. A única e verdadeira solidão
é a de nós próprios. Sem nós, é crudelíssimo
existir. Cortada, abortada a possibilidade de
sonhar, tudo morre com a morte do sonho. Se
imaginara quanto eu sonhava! E morro com as
asas na mão, na mão inútil, na mão que se
nega a querer, que não amo, que não quer
ser mão. Nesta doença infernal, até as
mãos pensam ser de cadáver. Morro com as
asas na mão: a minha pena de escritor

inutilizada. “Há mais cousas sob as
estrelas do que tu podes imaginar, Horácio!” – Já
o disse aquele sombrio Hamlet, que, no entanto,
ao dizer “ser ou não ser” ficou longe de cuidar
que o ser e o não-ser podiam coexistir. Essa,
a maior das tragédias, a do querer que não
pode querer.
Andam os arqueólogos a perguntar onde teria
sido o paraízo donde foram expulsos Adão e
Eva. Que tolos! Que longe de compreenderem
o simbólico! O Paraízo estava neles. Eles é que,
deixando de sentir o Bem, deixaram de ser paraízo.
Nós é que somos o nosso paraízo ou o nosso
desterro. Em qualquer parte se é feliz, mas
em nenhuma, quando da felicidade desesperamos.
Só há um mal absoluto, o do desespero. Há
um só mal, o do Bem perdido para sempre,
que equivale à pocessão do demónio.
O demónio é uma ausência que nos
parece presença. É o vazio, o vácuo, o não.
Enquanto, não sentem as pessoas o vazio
absoluto, têm nelas toda a possibilidade
de Bem. Enquanto, para exemplificar,

possam abrir a alma à música, só é relativo o
seu mal, não é de morte. O mal sem cura é o
de amar e não amar, ao mesmo tempo. Ora
a Zézinha pode amar a música, as flores, um
vestido bem feito. A Zézinha não repele
o Bem, não se repele, portanto, a si própria.
Sente-se o Bem. Quer o Bem. Está dentro de
si.
Como vê, sou um moinho de palavras, mas
cheias de sentido, fundas como abismos.
Pense-as, medite-as, extraia delas o gosto
da vida, já que ainda vive, que ainda é
consciente de viver.
O mal-empregado público que a vida
me forçou a ser, sabe hoje muito: a sua
pena é Apocalipticamente sábia.
Há dias, na insónia, dei-me a pensar
no Infinito, em como possa compreender-se.
Depois, aqui neste café, expus ao Eng.
Militão o que imaginava. Sabe o que
Ele me disse, espantar? – “Mas essa é a
teoria do Einstein!
Os antigos simbolizaram. Infinito
na serpente com a cauda na boca,

viram como realmente ele é, circular:
roda de moinho que move um rio inexgo-
tável. Já pensou que nunca os rios se
esgotam? Os rios levam a água, a
água vai até ao mar e evapora-se, faz-se
nuvem e chuva, caí, alimenta de novo
a nascentes. Águas passadas não
movem moinhos?! Qual! Movem! Os
bogalhos que arrastam, esses, até esses
voltam atrás…Como, sei-o eu, da
mesma forma porque os elementos dos
corpos que morrem vem a integrar-se
em novos corpos, da mesma porque as
almas voltam a novos corpos.
Sabe que estou esgotado. Escrevo, escrevo,
para me abstrair do irremediável, para
me esquecer do nada, da inconsciência
da não-consciência de estar vivo, de ser
eu, e não passo da cepa torta, como o
preto da anedota. Bogalho levado pelo
rio do Tempo, e a apodrecer, a novo
bogalho hei de voltar, e, então, sem
que me reconheça, sem que na lembre de

mim, hei-de comprar e abrir os livros que
deixei, talvez, em livro, alguma das cartas
que escrevo, e hei-de concluir, angustiado:
- Muito deve ter sofrido este homem!
Que escritor – porque não o
Camilo, o que estoirou a fonte – me empurrará
hoje a pena? Que outra pena lhe terá
empurrado a dele?
Cá está o Infinito. Quantas almas penam
da minha? E na sua Zézinha?
Deixe-me ser romancista, poeta, imaginador!
Deixe que este pobre diabo, este pobríssimo
diabo, espalhe a angústia: ele, o condenado
às galés da pena eterna.
Ia eu já a deitar abaixo a prateleira
da memória lembrar mulheres imaginadas,
descer da Antígona à Joaninha dos olhos
verdes. Já imaginou o Joaninha
do Garrett a ser notória em
Valpaços? Imaginara já a Rosalinda
do Shakespear a escrever: Aos tantos
de tal do ano de tal, no cartório notarial
dito no largo do Raio que os parta,

compareceu João Unhas de Fome…
foram testemunhas Inácio Cabeça de
burro e Feliciano Raposa Velha…
transponha para esta vilíssima de
Estarreja…Perante mim, Dom Quixote
de la Mancha, compareceu o excelentíssimo
doutor Carolino Júlio da Noite Moreno, direc-
tor geral das Raivices e da Notoriedade,
cujo dente de oiro reconheço por me ser
abonado pelo ourives Peçonha…
Ah! Que desespero! E tenho de continuar
a escrever, sempre, sempre…
vario, e escrevo-lhe dois sonetos.
Eu, se voltasse à vida e viesse a poder
alguma coisa, ferrava (perdoe o calão)
com determinados grandes Trunfos ao
Penitenciária, apresentava-lhes papel e
e tinta e dizia-lhes: os senhores saem
livros logo que tenham parido um
soneto, nem que seja de pé quebrado.
Claro que morriam na Penitenciária.
Ah! Zézinha! Diziam outrora no

meu Minho perdido que “muito asno come
o pão de Deus”.
Tão cansado que estou! Tão doente da
alma e dos nervos! Poderem faltar ainda
tantos anos para morrer, para renascer
noutro que leve, como eu levei, perto de
cinquenta anos a mobilar a cabeça de
algum saber, a desemprerrar e a ensinar a
pena, a dar, com ela, o meu coração!
E, até morrer, por enquanto aqui no
café, depois…depois, sei muito bem
onde…a esgravatar com a pena, a
sentir alfinetes de fogo nos nervos…
Aí vão os sonetos, enfim. Tiro-o
da memória cruel, da memória implacável,
arrasadora, deste meu poço de fogo e de
amor.

(ETERNIDADE)
(TESTAMENTO)

 

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria José Pimentel Piqueira e Silva.