
|
Tomaz de Figueiredo a Maria José Pimentel Piqueira e Silva a [data desconhecida]Querida ZezinhaRecebi agora a sua carta e respondo-lhe já, despre- gando da cruz esta mão que já não firmo a letra, que só quer dormir, pregada, partilhando, pesadelo do corpo e da alma. Respondo-lhe já, pois que, embora não possa dar-me a mim próprio, ao sedento de mim, do meu verdadeiro Eu, -eu quero, até ao extremo das minhas forças, dar-me aos outros, eu que nasci para amar, para consolador de amarguras e de penas, para irmão dos que sofrem: pois que sempre um poeta que verdadeiramente o é tem sede de almas, de beijar as crianças, sabendo-se criança com elas, nem que de cabelos brancos, nem que estrangulado pelas angústias, pelo tenebroso, pelo irreversível da desgraça. Direi que pelo destino, pois que há o destino e ninguém se lhe furta. Porque já em tempos experimentei esse mal de Valpaços, que para mim foi o de Tarouca, entendo-a muito bem, Zezinha. Mas digo-lhe que esse mal, comparado ao verdadeiro mal, é, na verdade, o bem. É o bem dos em tempos experimentei esse sem mal de Valpaços, que para mim foi o de Tarouca, entendo-a muito bem Zézinha. Creia que leio no seu coração como em livro aberto. Mas digo-lhe que esse mal, comparado com o verdadeiro mal, é, na verdade o bem. É o bem dos que podem ainda esperar – e acha pouco? – daqueles que podem imaginar a possibilidade do Bem. Quem me dera hoje padecer o que supus padecer na boa terra de Tarouca, cheio de liberdade da minha alma e a lutar, a poder lutar, por um triunfo que cheguei a ver e que somente o infortúnio me roubou, me trancou, implacável. Ai dos poucos, digo-lhe eu – eu que o era e sou – porque pode rastejar das profundas a serpente do diabo e picá-las. Não, Zézinha! Erga-se nos seus tacõezinhos e abra ao possível os seus [A carta acaba assim]
Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria José Pimentel Piqueira e Silva. |