Tomaz de Figueiredo a Maria José Pimentel Piqueira e Silva a [data desconhecida]

Querida Zézinha

Para as pessoas como a Zézinha, que tanto me
quiseram dar alma, eu tenho de fingir ainda que a
tenho. Por isso lhe escrevo. Quero, passando por
cima do sofrimento, por cima do desespero,
que na sua lembrança e amizade eu fique.
Aos seus filhos e aos seus netos, um dia,
há-de contar a estúpida e trágica história
do menino que caiu na boca do lobo.
Contara meu Pai que, eu, em pequeno, contara
assim um conto:
“Uma vez era um menino e veio o lobo e papou-o.
Mas depois já não papou…”
Então?
“Deitou-o ao chão e levou para o buraco…”
Só isto.
Desde sempre a minha alma o soube, Zezinho!
Quando, agora, olho para trás, - são tantas e
e tantas as coisas assim proféticas, mágicas!

Até a minha habilidade de ventríloquo, que
imitava perfeitamente uma Galinha choca
Ora, que, sou eu hoje, mais que sem galinha
a chocar
indefinidamente a dor geral?
Nunca os pintos acabam de partir a casca,
e a galinha, febril, a querer que nasçam!
Metáforas, Zézinha. Mas em tudo agora
assim estou… Metafísico, metapsíquico, e
tenho, mais do que uma psicose, uma meta-psicose.
Quer dizer que a minha alma não está em mim.
Voou, sumiu-se, e, por mais que a chame,
não torna. Ora, este que conhecem, pena
sua consolação a ausência da alma.
Compreende? Eu sei que não pode. Nem
ninguém. Pois se, escrevendo, a minha alma
é quem dita!
Com menos complicações metafóricas, Zézinha,
- doente, e sem possível humana cura. Fizeram-me
o saque geral. Vítima duma terrível injustiça

[A carta termina assim]

 

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria José Pimentel Piqueira e Silva.