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Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a 24 de Novembro de 1958Minha Querida Maria AntóniaRecebi a tua carta. Como a Mitó ainda não respondeu à minha, lembro-me que ainda esteja de cama e que não esteja bem. Eu, acho que vou a pior. A abstracção – portanto nada – mas produto da imaginação doente, continua a torturar-me. A única coisa de que estou quase bom é de colite espasmódica. Mas o sentimento de ruína total e geral não me deixa, sempre a ideia de que não sou eu, que a inteligência não vence. Assim, a minha procura, cada vez me vejo mais longe. Casualmente, pois continua a não ler, soube da morte do João Pais e mandei um telegrama a família. A escrever, continuo incessantemente, forçado pela necessidade de suster o espasmo cerebral. Levo já adiantadíssimo outro livro, em verso branco, Viagens no meu Reino. É de estarrecer que, desde Abril, tenha escrito oito livros. Penso que nunca ninguém escreveu sob tal esporão de angústia. Não tenho um instante de sossego, o que me traz estenuado. E, a cair de sono, dormirei umas três a quatro horas. Comer, vou comendo melhor. O corpo, só torturado pela nevrose, que parece uma camisa de forças de fogo, no fundo está são – apenas emagrecido – e pede comida. Hoje, depois do almoço, comi dois pães com manteiga. Muitos beijos as pequenas e para ti do teu Tomaz Estarreja, 24 de Novembro de 1958 |