Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a 21 de Março de 1960

Minha Querida Maria Antónia

Disseste-me o dia, em tempos, mas passou-me,
e sei só que é neste mês o julgamento.
Peço me digas quando. Se dispuser de
mais três dias irá uma carta – já começada –
que valerá pela minha presença. Lida, será
a verdadeira defesa, embora inútil, pois que,
nem duvido, tudo está, e desde sempre esteve,
decidido e escrito.
Penso que deve o T., conquanto de nada lhe
sirva, recorrer da sentença, e publicar-se-há
a minha carta, a qual, sem que possam
pegar-me, poderá ser o início do desmorona-
mento duma situação só de violência e de
crime legal.
Como quer que seja, a minha carta não
pode deixar de obrigar o T. a pensar.
Só por isso, vale a pena escrevê-la.
Pronto. Vou registar esta carta, à
cautela, e bem lacrada.

Beijos para vós do Teu
Tomaz

Estarreja, 21 de Março de 1960