Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a 20 de Março de 1960

Minha Querida M. Antónia

Para grande mal do meu bem – do
escritor que tudo tira do amor,
eu não posso escrever ao Paradela
uma carta tão feliz como a outra,
porque posso escrever mil ou cem mil.
Terrível, que essa vocação invencível,
que essa ordem de Deus – Se há Deus –
não haja, a tempo e horas, sido compreen-
dida, aceite e, até, julgada
sorte-grande! Acontecera assim, e
eu, que tenho a consciência de ser
e os conscientes sabem que sou um
escritor único – e único em qualquer
país e em qualquer tampo – não
me torceria hoje nesta noite mental
indefinida e, hora a hora, mais
fechada e assombrada de demónios.
Vou escrever ao Paradela, e verás
em que termos1 E, então, se para


ser lida no tribunal, hás-de ver a carta
que me sai da Dor, da Fome e Sede de
Justiça e também da Jeiteira de
quem sabe como se enxofra, sem que
o enxofre caia nos olhos.
De algum modo, se tal carta é lida
- e até ao fecho – no Tribunal, será
como se eu lá estivesse, lá falasse
o meu coração em defesa do meu
filho, e ele a ouvir-me, ele,
finalmente, a compreender-me, a saber
quem era um pai que ele – duro e
cerebral – só em pequeno sentiu,
quando – ora aí tens – na Nazaré
eu chegava de tomar café no Baú
e ele me perguntava, - "ó pai,
trouxeste torrão"?
Torrão, o cubo de açúcar que eu
não gostava e sempre lhe trazia.
Tantas recordações destas,cá dentro1
Portanto, vou escrever hoje ao
Paradela. Interrompe hoje a
dactilografia do primeiro
volume do romance "Monólogo em


Elsenor", - O Gato e o Rato, que escrevi
em vinte dias…
Quando me lembro de que ninguém
faz ideia da obra escrita em
dois anos de não parar de angústia,
que em parte há-de perder-se, se os
que fiquem não lhe deitam a mão e
o amor! Refiro-me a obra em
verso, que hoje assusta qualquer editor,
mas que, um dia, como a do Fernando
Pessoa, será uma mina. Claro que estas
minas são sempre póstumas…em Portugal,
onde só os poetas que ajudam a
burrice, quando a burrice é o poder
- os Correios de Oliveira burríssimos –
são reconhecidos do Poder.
Pronto. Vou escrever ao Paradela.
Amanhã, ou depois, te mando a cópia.

Muitos beijos para vós do
Teu
Tomaz

Estarreja, 20 de Março de 1960