Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a 16 de Janeiro de 1959

Minha Querida Maria Antónia

La Rotisserie é o mais viperino livro
que conheço, a parte ser uma obra prima.
Ele não tem maioridade e independência mental
para aproveitar o artístico e encolher os ombros
ao diabólico. Pelo contrário, é este que procura.
O Livro da Weill não o pode pedir, até porque
o não conhece. Se o lesse honestamente, curvar-se-ia.
Mas ele, como os outros, nega-se a inteligência.
Em todo o caso, leva-lho. Nada perdes. E, se o
ler, ainda acho possível que a impetuosidade
sobre o milagre. Nele, apesar de inteligente,
a parte em política, na qual, cego por terríveis
circunstancias pessoais e nacionais, é aparatosa-
mente estúpido. Por amor de Liberdade, abraçou-
- se a tirania, a desumanidade. É absurdo.
Muito mais graves razões eu tenho para me
revoltar e, intelectualmente – que é quanto


me resta – continuo fiel a força da inteligência.
Isso de só poderes falar-lhe em frente dum
polícia é…estúpido. Então a polícia desconhece
que vais lá apenas na qualidade de Mãe e que és
insuspeita’ A polícia, estupidamente, só o leva
a maior revolta.
Enfim, não escrevo mais. A Justiça em mim
penada, ofega inutilmente. Não sei se há Deus,
e tudo me diz que não há. Seja como for,
sou homem diminuído das suas possibilidades
humanas, e não tenho forças de Deus.
Nem digo mais.

Muitos beijos para vós
Tomaz