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Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a 15 de Agosto de 1959Minha Querida Maria AntóniaRecebi a tua carta, e respondo-te a noite, depois de conversar durante horas no café, com o delegado e com a mulher, depois com outros. Esta doença, que, sem dúvida, é um emperramento das faculdades intelectuais, quase que se anula, e chega-se, até, a ter ocasião de muito boa disposição, quando se faz ginástica de pensamento e de ideias. Reconhece-se, então, que não há motivo para a menor angústia, que tudo foi coisas sem importância. A cama, o sono, a imobilidade, é que tornam a estragar tudo, e, pela manhã, ao acordar, torna a angústia, a falsa e exageradíssima avaliação das coisas, e o bicho de sete cabeças é apenas o sofrimento cerebral com o seu reflexo nervoso. Faz ferro que o cérebro não retome o antigo andamento normal e que as tonturas e as vertigens desnorteiam. A experiencia de três anos diz-me que é sempre assim, e é preciso, na verdade, voltar-se a verdadeira avaliação de tudo, após a convivência, para se concluir que não passa tudo de mera abstracção. Seja como for, o cérebro e os nervos não funcionam como dantes. O remédio, a princípio muito eficaz, já não dá a euforia que deu, mas, associação de calmamente nervoso e de excitante cerebral, ainda é a melhor coisa que me apareceu. Com custo, embora, pois é na hora do torpor, tenho continuado a barbear-me e a tomar um chuveiro frio. Aqui tens. Cheguei da rua, despi-me, e escrevi-te esta carta. Como, natural- mente, amanhã, já estou a sentir de forma diferente – é sempre assim – vou tornar a vestir-me para deitar esta carta ao correio, em hora de pensamento e de sentimentos normais. Neste momento, sou o antigo, que era capaz de subir a um quinto andar para servir alguém. Muitas saudades e beijos para a Zinha. A Mito já me respondeu e lá voltei a escrever-lhe. Ela pensa ir para a Curia lá para o fim do mês. Que pena é que as minhas subidas a vida sejam sempre passageiras1 Há, de facto, qualquer coisa que não funciona bem dentro da cabeça. E quando a cabeça pára e o pen- samento só olha para trás, é que sobrevem a angústia, tão quando que, se estou deitado, chego a desmaiar a perder a noção do que me rodeia. Muitos beijos do teu Tomaz. P.S. Não escrevi ao Barradas. Penso que devo aguentar-me até ao fim do ano, se, assim, a reforma é melhor. A propósito, diz ao tio Paulo, a quem muito e muito amigamente me recomendarás, que a reforma dele, como a de todos os antigos, vai brevemente ser revista e aumentada. Esta informação é certa, pois vem da melhor fonte que é possível. O aumento será proporcional ao que recebe. Receberão mais os mais prejudicados, menos os que o foram menos. Não sei se o caso do tio Paulo, mas nunca virá a ter aumento inebriar a 25% do que actualmente lhe dão. T. |