Tomaz de Figueiredo a Maria Augustina Bessa Luís a 15 de Janeiro de 1941

Ponte da Barca- Portugal – 15 de Janeiro de 1941

Minha Querida poetisa

Passadas três horas de manhã. Aqui já há muito é
noite, e decerto só eu estou desperto, escre-
vendo, tentando criar almas.
Ainda há minutos, a voz de Olga André, ao microfone
da R.C.A. Victor, me dizia versos duma poetisa
de que nunca ouvira falar…
Agora já não oiço a voz de Olga André…Perdeu-
se como um fumo…Perdeu-se, e quem sabe se voltarei
a ouvir-lhe dizer-me versos de Mathilde Alvarez…
Mathilde Alvarez viveu para mim por instantes e morreu.
O mundo é
tão grande e tão cruelmente cheio de impossíveis…
mas os versos que a locutora me dizia,
como farrapos de nuvem a
esgarçar-se, doiram-me ainda a memória, vibram ainda
nela como azas melodiosas…
Revolta-me contra a distancia, contra o
sentir do nunca mais…
Então nunca, nunca mais saberei da poetisa que me
deu uns segundos de alem, nunca mais os seus poemas
me darão alem, - perdidos, irremediavelmente perdidos para
mim, como um barco afundado? –
Valem-me agora os seus versos aqueles que em sonhos


criamos, essas melodias que em sonhos
ouvimos, e dos quais ao acordar, apenas guardamos uma
desesperada saudade, impotentes para os rehaver,
perfumes evolados para sempre.
No entanto a poetisa sentira também para mim, pois
sentira para todos que teem sede de almas…
Falara para mim – e eu ouvira-a…
Eu sei que se esta carta lhe chegar,
ela, a poetisa longínqua, a poetisa para mim impôs-
sível, cuja voz nunca ouvirei, cujos olhos nunca olharei,
cujas mãos nunca terei nas minhas, ela não poderá
deixar de me responder.
Eu queria poder ainda ler os seus versos, escutar-lhes o
encanto – desafundar o barco, ressuscitar a morta.
A minha carta aí vai. Tanto poderá descer ao fundo do
mar – e a destinatária nunca saberá que existo –
como poderá cair nas suas mãos longínquas dizen-
do-lhe que, longínquo, desesperadamente
longínquo, meu amigo pensa nela…
Mas se a chegar a ler, ela, a minha poetisa, impossível
decerto se comoverá sabendo que
a sua alma chegou tão longe. De longe lhe beijo as mãos.

 

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria Augustina Bessa Luis.