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Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a 13 de Julho de 1959Minha Querida Maria AntóniaRecebi a tua carta. Eu continuo na mesma, talvez pior, porque a convicção de não ter cura cada dia se acentua mais, e, com ela, a par do pasmo de me ver inutilizado, os espasmos, gerais que me queimam o cérebro, que me rasgam e esfacelam o coração e os intestinos, os nervos e os músculos, e me torturam sem parar e me prostram de cansaço e desespero. Muito tem aguentado e muito tem sofrido um corpo que era são, que vai de perecendo a pouco e pouco, por deficiente alimentação, por falta de movimento. E, na mesma um espírito que tanto se deleitava com as coisas belas, com uma bela página, com uma bela música, com um pensamento ou um projecto agradáveis, e que, agora, podendo variar, porque pode, tudo sente igual, negro e horroroso. É pena que uma pessoa tão bem dotada, que já tinha vencido e que maior veria sempre a vitória, se veja transida pelo desgosto continuo, que, revoltada contra os mistérios dum cérebro que sucumbiu, enlouquecido, após quatro meses de múltiplo suplício moral e mental, se torça em vão, contra o impossível da não-culpa, que o mesmo é que o destino, ou que a fatalidade, tão expressivamente anunciados nas linhas da mão. Tudo em mim está bom, inteligência, argúcia, sensibilidade, sentimentos, sentidos. Tudo, menos a vontade, paralizado, sustada, em transe. Claro que na mesma estão destroçados os nervos, ardem-me e não me respondem, de reflexos atrasados, como se eles próprios pensem, antes de dizer sim ou não. O gato, depois de muito pensar, está na vontade, e ela é o motor, é o senhor, é quem manda. A vontade quer sempre o contrário do que é útil. Os sentimentos e a inteligência são forçados por esta falsa vontade e sofrem, mas sempre em vão, porque não é uma vontade que possa educar-se, é, sempre, uma vontade que é violentada. Tudo, menos ela, recuperei. Também, se a recuperasse sã, ficaria muito melhor do que era, depois do intenso labor intelectual que me tem descoberto horisontes nunca imaginados e me tem desemperado apenas e os meios de expressão. O Polónio não me respondeu e não responderá, aposto. Que há-de ele dizer-me, se sabe que não posso curar-me? O Que ele não imagina, embora saiba que sofro, é a que ponto vai este múltiplo sofrimento, que abrange quanto amo – e tanto é1- Que me rasga e desfibra de instante a instante, que só me dá descanso quando durmo, em que me recupero tal qual sou. Mas, dormir, só com brutais cargas de hipnóticos, que devem contribuir - digo contribuir – para que sempre ande sonolento, alheio, como noutro mundo, como os tigres de circo. Escrever, vou escrevendo – e bom, e excepcional mas faço-me sem gosto – se o paradoxo é de aceitar – e apenas para ir engolido o travor de cada momento. Foi avariada uma máquina perfeita de mais para andar por mãos de sapateiros, direi que foi estragada. O Alberto de Serpa, que tem sido fraternal fraternal como tantos que o meu coração mereceu – tem vindo aqui, do Porto, visitar-me. Neste momento está para Lisboa, e é possível que lá tenha tratado da publicação de um ou de vários livros de sonetos. Parece que fui destinado - pelo preço de todos os sofrimentos – a ser o poeta da psicose, a ser aquele que lhe dirá do suplício geral. Entretanto o corpo, que foi de atleta, vai indo pela água abaixo. E a esperança já há muito o foi. É pena que não tenhas podido o companhar o Tom, mas a Zinha também é a Zinha. Se imaginasses quanto me tortura ver-me aqui – ou noutra qualquer parte onde estivesse – psiquicamente preso, como uma jaula1 Perdi a mobilidade, o gosto da mobilidade. Só me dá para encostar a cabeça pensar, pensar inutilmente. Muitos beijos para a Zinha - para a querida Zinha, ouviste – e para ti do Vosso Tomaz Estarreja, 13 de Julho de 1959 |