
|
Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a 12 de Novembro de 1960Minha Querida Maria AntóniaRespondo às tuas duas cartas. Quanto à casa: Nem tudo que luz é oiro. As Sottomayores, que moram num andar, recebem directamente a renda do outro. Verificam algum estrago, vigiam e pagam a reparação. Administram elas, os proprietários distantes dão 4% das rendas ao “procurador”. Este, por sua vez, apresenta contas de danos fictícios, ou então exagerados. E nem sempre a casa estará arrendada. Nos intervalos, como é óbvio, não rende. Acontece que no Porto e arredores, ao contrário de Lisboa, a construção (aliás fraca: de empreiteiro) está a exceder as necessidades do crescimentos da população: Daí que há sempre casas com escritos nos bairros como esse em que foi amostras o médico Ângelo Baptista, arrependido hoje de ter comprado, e dentro do Porto, uma, por mil e tal contos, mas satisfeito com outra, comprada em Lisboa. É pessoa que faz contas. Escaldado e a saber doutros escaldados, ele me informou disto e de mais. Por outro lado: Considero de todo inaceitável, para integrar o custo, pudesses lembrar-te de vender as acções que herdaste. Seguir a misturar o teu com o meu não faz sentido. Já que com o preço do campo de Távora compraste acções da C. das Águas, é da minha vontade que averbes em teu nome quantas necessárias para completar o número das que herdaste. E, se não chegarem, também a minha determinação inabalável, comparar as que faltem para que te refaças totalmente da legítima do teu Pai. Se me perguntas com que dinheiro, res- pondo, como um dia já te respondi, ao recusar que o teu irmão António pagasse o internamento da Maria Rosa quando foi da apendicite. "Eu ganharei um prémio literário que me permite esse pagamento". E ganhei-o, se te recordas, assim como te recorderás que paguei. Responde-te, ainda, quem ao mesmo o teu irmão pagou a contribuição para a Estadia na Luz. Mas, se não vier a ganhar o prémio literário que espero, e os meus amigos das Letras acham que me são devido, então venderás o campo de Guilhadezes e quanto for necessário, a própria casa, para que não fiques lesada. Ferido, exactamente, na dignidade, que acima de tudo prezei e prazo, ingénuo e poeta, desinteressado como foi em todos os actos da vida, só quero o que seja meu, o que é meu, quanto dignamente possa conservar do que herdei. No momento oportuno, que deve ser pelos meados do próximo ano, e que ao mesmo tempo que eu hás-de saber pelos Jornais, me comunicarás, sem o enfado de contas, o quantitativo de quanto preciso devolver-te. -------------------- A respeito da ida para aí, que somente a partir da tua carta de hoje posso preparar, vou ver se um amigo – e no Drummond é que penso, por ser um igual, poderá levar-me no carro. Agora a papelada de três anos, da máquina de escrever e da roupa, sem mala onde caiba, como te lembrarás, que não poderia acomodar no comboio, eu, doente ao ponto em que estou e me sinto, e desacompanhado, só com só com bárbaro sacrifício podia viajar como quando era são. Mas, se de todo tiver de ser, Deus, de existe, o levará em conta. O mal é se não existe, porque dele só posso receber Justiça. Prevenirei de quando chegue, e, se for de carro, para que a Mitó me espere na Elias Garcia e me apresente ou me apresente à criada. Eis do que me lembro, e que será tudo, ao que me parece. -------------- O decreto de Amnistia lá saiu, exacta- mente nos Termos em que o previ. O T., de saúde e novo, que vá pintando e criando, a única forma de protesto a que o futuro dará valor pessoal. Doentíssimo, eis o que faço. Desespero da cura mas não do futuro. Esse me desafrontará. Eu sou eu, e são nada os que me assassinaram. Mandei ontem a Maria Rosa uma revista com duas apreciações a "Conversa com o Silencio". Pode ser que mais tarde, se chegue a reflexão e compreensão a que sempre chegam os puros e capazes de amor, venha a querer intelectualmente e sentimentalmente à obra do pai, que nela fica vivo e tal como nasceu, que venha até a orgulhar-se dele, e tanto mais que, nesse tempo, já será "oficialmente" um dos maiores romancistas, poetas e escritores de Portugal, esse pouco, mas que foi tudo quanto pode e lhe consentiram pudesse. Por isso, e por ela, recomenda-lhe não perca a revista. O "Dom Tanas do Barbatanas" está pronto. Noutros livros seguirei a amor, a sofrer e, porventura, também a punir. Para tudo isto nascer. Muitas saudades para vós do Teu Tomaz Estarreja, 12 de Novembro de 1960 |