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Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a 12 de Janeiro de 1959Minha Querida Maria AntóniaSão muito boas as notícias que me dás. Se o coração dele, adormecido, acaba por acordar, o amor há-de salvá-lo. Coração, coração e só coração é o remédio que deve ser-lhe dado. Claro que, só o não recusar, se intelectualmente lhe interessa, desde que pede livros, poderás levar-lhe aquele da Weil que, por cima, cuido remédio intelectual, remédio para pessoas inteligentes e de boa vontade. Mas tudo estará no coração que, por fim, sinta, que por fim abra os olhos. Diz-lhe que luto com uma terrível paralisia e que, quanto mais quero vence-la, mais me prende. Diz-lhe que, estupidamente, estou reduzido a escrever, dando-me o que escrevo um grande desgosto, quanto mais a minha compreensão – livre, essa – me diz que estou a fazer coisas sempre mais belas – a beleza aumenta com o sofrimento – sem que sinta a alegria do meu trabalho. Acabei, ontem, o poema Viagens no meu Reino, e, ontem mesmo, logo a seguir – porque parar é sentir brasas na cabeça – comecei outro, qualquer coisa que será parente do Cantar del Mio Cid. E pena que eu não possa delinear um mínimo de plano. Aí o meu mal. A nevrose não deixa. Tu que já tiveste bicos de papagaio, imagina o que seja o equivalente generalizado, a-par do horror a tudo. Quanto a ele, penso que tudo é melhor do que andar como andou, perdido de todos. E agora, não poderá deixar de ver que foi a Família que precisou de recorrer na hora má. Seja como for, enquanto tiver saúde mental, estará rico. Essa, a riqueza sem preço, ao pé da qual o talento e o génio são nada, pelo contrário, são desespero. A Rosa foi vizitá-lo’ Ele não se comoveu com a afilhada’ Muitas saudades e beijos para vós Do teu Tomaz Estarreja |