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Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]Minha Querida Maria AntóniaRecebi há dias a blusa, que muito agradeço. A solução, agora, realmente, é a que deste! Aqui te envio a procuração, com todos os poderes. Mais tarde ou mais cedo, precisavas dela, dada a minha incapacidade. Vende, compra, faz o que entenderes. Em melhores mãos não podia estar do que nas tuas. Lembro-te, apenas, que no caso de venderes o Bairio, deves reservar a pensão deste ano. Assim, explicitamente, deves contratar, mas que fique o preto no branco. O melhor será fixar o preto no branco. O melhor será fixar que o comprador só tomará posse do campo a partir de Outubro, marcando que a pensão deste ano, aliás já vencida, bem como o vinho a colher, te pertencem. Eu continuo mal, sempre com esta casaca de fogo no peito e custar a respectivo capacete na cabeça. É horroroso. O horror é o desprendimento de tudo, a partir de mim. Se sinto que isto, também nada sinto que exista. E quanto mais luto, mais reajo, pior. Escrever, agora, escreves continuamente, mas com o menor desgosto. Escrevo porque é a forma de suspender um pouco o aperto da cabeça. Aquele poema ‘’que viste, já lhe pus ponto. À roda de 6.000 versos, em mês e meio…É de enlouquecer esta pena de trabalhos forçados contínuos. Comecei ante ontem, e já vai a engordurar, qualquer coisa em que misturo Memórias é ficção. Memórias dos Arcos, principalmente. Vai sair uma coisa bem mais pobre do que sonhei quando estava bem, não só pela nevrose que não me consente uma boa ordenação e que me demore em pormenores, como também pelo valor que o meu estado atribui a coisas sem importância, mas que para mim valem, pois são o tempo em que eu era dono de mim. Dá-me um grande abraço, de muito e muita amizade a teus tios Mário, Adriano e Paulo. E …já sabes a quem me refiro. Um grande beijo. Sou o teu Tomaz
Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo. |