Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]

[i]
Nem o juízo que eles façam a meu respeito
que interessa ou comove – mando-te o soneto –
“Na Acrópole”, para te marcar uma fase da
minha evolução literária que já vem desde 1915 – dez
anos foi a fase do culto pela Grécia, pela sua
beleza concisa, pelas suas grandes linhas nobres,
fase que se bem modificada por outras influencias
e por outros horizontes subsiste e subsistirá
sempre. Foi em Coimbra, - no meu quarto
eu inaugurei uma fotografia da Acrópole, e que
eu e o meu grupo – mais quatro, numa noite de exaltação
quase resolvemos ir ao Louvre roubar
a Vénus de Milo, para a trazermos para um dos
nossos quartos, a sorte, onde lhe teríamos perpetua-
mente acesa uma lâmpada de azeite, o fruto
da árvore de Minerva como nós dizíamos!
É claro que isto não era mais do que um alegre motivos


de conversa. Olha tenho saudades desse tempo
em que geralmente tínhamos reunião e tertulia no
quarto do Mário Coutinho de quem suponho já lhe
falei – um rapaz que um dia será alguém
[i] ou moralmente se não se suicidar.
Que a gente fez foi muita literatura
e nenhum estudo, e creio bem que de todos, apenas
eu me formarei, - merecê de ti, Maria Antónia, porque
outros, ou desistiram ou desistirão, por falta
de vontade. Mas deixemos Coimbra e essa alegre
fase. A "Romaria" é quasi um soneto préistórico. Se tomando, é porque indirectamente se refere a ti – "aquela que há de vir". Por isso olha-o só por esse lado, que se o criticares,
- vai abaixo! – Temos ainda o "Andorinha" do ano
passado, muito simples porque eu não gosto de compli-


car as coisas simples. É em parte verdadeiro
em parte imaginado. Sempre a maldita literatura
em intrometer-se’ – "Aqueles dêdos" creio que não
precise por na carta, embora os teus sejam
morenos, o que em nada me desgosta estás descançada.
Ao "Ícaro" que tem uma vaga ideia que já te dei
deves apenas aquela aspiração e aquele pessimismo
dar-lhe um sentido que apenas se prende com o
conceito que tenho de que é impossível em literatura
alcançar o absolutamente belo.
E – voilá. Afinal – vão apenas seis
[i] outros que tinham copiados, - resolvi substitui-los
por a outros, mas vão estes por enquanto, para que
não digas que prometo e falto.

[A carta acaba assim.]

 

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo.