Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]

Minha Sempre Querida Mitózinha

Eu é que sei pouco falar, muito menos sei
escrever…- Tenho estado a espera do António. E
é já meio-dia e calculo por isso que já não virá.
E como o momento em que ontem nos separamos
uma espécie de nevoeiro e de sonho anda a pertur-
bar-me vagamente. Deliciosamente vim agarrar-
me ao papel para ver se consigo dizer-te o que sinto,
- e que penso será quase impossível,
pois nem eu me consigo precisá-lo.
Não é que somos uns loucos, - que
pedimos, que exigimos das palavras aquilo que elas
não podem dar-nos. – O máximo que eu posso dizer-te,
o máximo que tu podes dizer-me – amo-te, amo-te,
e muito e muito – [i] que, é isto, que mínima gota de
água é isso, só isso – para a nossa sede de amor…
- e tu desconsolas-te comigo, e chegas a duvidar de
mim e dizes que eu não gosto de ti como já gostei
– e cada vez eu confio menos nas palavras. – Como
hão de faltar-nos as palavras.’ – O tempo dos noivos’
Há quem tenha saudades do tempo dos noivos’
– Disseste que sim. – Eu acho que misturado com
o infinito encanto – tem um infinito aborrecimento.
– Não1 Não quero nunca ter saudades deste tempo.
– Eu tenho mas é saudades, se é que se pode ter
saudade, do que ainda não passou – tenho mas é
saudade do tempo que há de vir – o mal
– é que tem um [i]

 

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo.