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Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]Minha Querida Maria AntóniaJá esperava tudo. Assim mesmo, fiquei terrivelmente abalado. Parece que nada sinto, que estou de pau, mas, se levo uma chicotada nova… Sim, penso como tu. Em frente de 28 anos estão 70 e não sei quantos. E assim que este deixas de fazer anos…Pelo menos nessa ocasião. E há pior, há o irremediável. O caso desse capitão que apareceu enterrado no Guincho e…de sapatos trocados e…com quatro balas na cabeça e uma delas na nuca… Claro que foi assassinado descalço - obrigado a saltar da cama – e depois calçarem-no como apareceu… É assim a agonia dos tiraninhos. E aqueles que os adoraram, agora que limpem as mãos a parede. Estou doentíssimo, mas isto – hoje – não me impede já de firmar quanto pensei. O tiraninho é menos criminoso do que os partidários – ou só lorpas, ou então comilões de corrente. Que receba ou não carta da pessoa a quem escrevi a primeira e segunda cartas, daqui a uns dias – sempre correcto – vou dizer-me umas verdades que já posso agora dizer-lhe. Não sei – ou sei de sobra – o que neste país se está a fazer. Que sementeira de ódios! Vou devolver-te as contas dactilografadas para a emenda dalguns gatos e rectificação das somas, consequente. Depois, pedirei a reforma. E, sem cura, mas até porque não posso parar de escrever, buscarei refazer o modo de ir ganhando uns dinheiros pela pena – em artigos – além de na edição de livros – 24, já escritos. Ouve, consulta o Paradela. Eu creio que não vale a pena pagar o imposto de Justiça em que o T. foi condenado. Como não tem nada, agarrem-lhes nas botas, ao menos a esse respeito. E, depois, na hipótese que tem de ser verificada, mais tarde ou mais cedo, ninguém lhe pergunta por isso. Se essa hipótese não se desse, pago ou não pago o tal imposto, a condenação, com as medidas de segurança prorrogáveis, equivale a perpétua. Mais uma coisa. Pergunta ao Paradela pela conta. Naturalmente te dirá que não é nada. Então te darei a solução da lembrança a oferecer. Não escrevo mais, para apanhar o comboio correio. Muitos beijos para vós do teu Tomaz Diz ao T. que não deixo de pensar nele. F |