Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]

Minha Querida Maria Antónia

Cá continuo, não na mesma. Porque isto
É um mal que vai redobrando.
Penso, e pensam alguns médicos, que só
uma coisa poderá talvez, curar-me, e, desde
que um neuro-cirurgião seja do mesmo parecer,
estou disposto a subter-me a essa derradeira
experiencia para voltar a vida. Refiro-me
a leucotomia, que, em Portugal, parece
que é bem feita pelo Almeida Lima.
- Abrir o craneo, enfim, cortar um ponto
que eles sabem, e cortado assim, para
sempre, o anel que os choques insolínicos
só podiam e puderam interromper tempora-
riamente, voltar a sentir a vida e não
o inferno indefinido.


Sei que vais pensar e repetir que não sei
nada disto. Pouco importa. Mas importa
que o que eu diga seja apreciado por quem
saiba. Oiço dizer que a lencotomia tem
dado resultado em casos idênticos. Seja como
for, desde que haja probabilidade de cura, sujeito-
me ao sacrifício. Assim é muito pior do que
estar morto. Quem se dispõe a aceitar
que lhe abram a cabeça, joga tudo por tudo.
Se não der resultado, ficarei imbecil, mas,
ao menos, sem sofrer.
Segundo me consta, o Barcelons já
tem utilizado a lencotomia. O que parece
e que os médicos lhes custa aceitar a respon-
sabilidade da operação – Eu aceito-a. É comigo.
Tudo a ganhar, nada a perder. E, se for a
morte, até isso é sonho. Ninguém, nem de
longe, imagina o que tem sido este suplício
que já vai em três anos, acrescido pela consciência
da suprema injustiça de que se foi vítima.
Beijos para vós
Tomás