Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]

Minha Querida M. Antónia

Leio, na "República" de ontem. O artigo que
te envio e que me abre uma esperança no desespero.
Peço-te procures e oiças o que te diga o
prof. Polónio a esse respeito. Ao cabo, esse
método é o de uma leucotomia exacta, que nem
exige habilidade de operador, e esta não me assusta.
Esta minha doença, que dia a dia progride
e me aperta, de tão violenta, abstrai-me, praticamente,
e, por extremo requinte, nem sequer mata,
embora eu me alimente cada dia menos, até
por achar que não vale a pena, que estou só
a dor de comer a dor. É, como a do operado
de que o jornal fala, uma depressão e nevralgia
contínuas, que não me poupam um nervo
da cabeça aos dedos dos pés, que me fazem de
sofrimento a qualquer pensamento.
O Manuel Valadares que apresenta o caso
e um sábio português que Portugal correu
e que hoje – nada menos – é professor da


Sorbonne. Uma espécie de Henrique, esfogueteado
do Instituto de Agronomia, dum Pulido
ou dum Eu, que fui sacudido das Letras
que tão honrosamente servia e que tanto
queria continuar servindo.
Tal como estou, sirvo só para sofrer, e
sou um terrível fardo. E, agora, se voltasse
a posse de mim e da vida, a terrível experiencia
da dor e dos homens dar-me-iam uma obra
excepcional e única, pois que nunca um
homem de Letras dispôs de tal experiencia,
nem o Dortoievski. Grande pena
tenho de levar para a sepultura tão grandes
livros. Agora, se me libertasse, sinto e sei
que da minha pena escoraria oiro – em todos
os sentidos.
É preciso tomar bem a sério a promessa,
que é quase certeza, do tratamento do sueco.
Entanto, embora a saber que não pode estar
aí a cura, tento continuar a escrever. Só
que me desespera ver que não escrevo – oprimido
pelo desespero – quanto podia fazer. Que
riquezas vão ficando fora do papel1
Eu, hoje, superaria o Proust, explorando


o sentimento do amor proibido até as
possibilidades mais inacreditáveis. A minha
pobre cabeça, em revolução impla-
caveis, é hoje um tesouro desaproveitado. Vale
mais do que valia, muito mais, pois que revolvendo-se,
se descobriu o que nem dentro sonhava existir.
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Já escrevi ao Zé Paradela e lhe mandei
umas amostras de versos.
Pelo que, o Tom vai a julgamento.
E quando?
Eu precisava de tornar a vida para deitar
a mão ao que seja possível salvar.
Enfim, adeus, e não descures o que te peço.
Beijos as queridas três nossas meninas,
ao querido T. e a ti do

Teu
Tomaz