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Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]Minha Querida M. AntóniaJá tinha pensado no Paradela. É prudente e sabedor, é de bom coração, é meu amigo, é poeta. Já que eu não posso – porque se estivesse bem seria eu, e di-lo ao Tom – ninguém acima do Paradela. Possivelmente o Luís te lembrou também o Mário de Castro, meu condiscípulo e amigo, rapaz inteligentíssimo, mas o conjunto de qualidades do Paradela supera-o. E tem essa formosa dedicação aos amigos, é um coração, aliás também com fundos desgostos que o deixaram perto de hemiplégico. Reparaste na expressão da boca, meio lesa? Tenho perseguido o Neves para que te mande os elementos que pedes, e, hoje, de novo insistir com ele. Faz parte da doença não conse- guir nada dos outros… o Polónio também não me respondeu. Julgará ele, ao cabo, que a leucotomia nada resolve e ainda escangalhará mais a cabeça, que não está escangalhada mas só perturbada pelos espasmos contínuos que vão até a ponta dos pés? Que angustiam e desesperam, que forçam a pensar somente no sofrimento e suas causas, a ver ininterruptamente a imagem de homens-diabos? Depois de mês e meio sem escrever uma linha literária, apenas alguma carta de resposta a amigos que não me aceitam perdido, agarrei-me ontem a um romance, que pode ter mil páginas e que talvez em coisa de dois meses chegue ao fim. Raciocinando o meu estado, concluo que, ou hei-de persistir em escrever até a morte, ou, então, se me quedo só a pensar, ainda sofro mais, porque fico perto de cataléptico, de pescoço, rígido e de cérebro incandescente. O que me consome, acima de tudo, é saber que por meios físicos deve haver possibilidades de cura, já que o choque insulínico o pode fazer por horas. A medicina, porém, procura-os mas ainda os não encontrou. Se soubesse arredar-me o sofrimento físico, o sofrimento mental desapareceria. Vou copiar umas poesias para mandar ao Paradela. Esteve aqui há dias o Alberto de Serpa que vai procurar publicar quanto escrevi neste período maldito, a começar por uns livros de sonetos. Não me interessa, mas deixo. Aceito, já, embora não preveja a que ponto o andamento da doença possa vir e paralizar-me, que ainda venha a prosseguir a Toca do Lobo. Falta-me a alegria, o prazer de qualquer prosa, e, assim, sairia diversa, como que obra de mão de médium em Transe. Sou uma máquina intacta mas emperrada. Aceito, até, que possa vir a continuar as palestras para a Emissora, embora tivesses de ser lidas por outro, no que muito perderiam. Não sei, enfim. Falta-me – aí o erro – o uso alegre e livre da vontade, que tenho a cada instante de suprir por um mandado da inteligência, faculdade e espectadora e neutra. Muitos beijos as pequenas, as três. Diz ao Tom que avalie de quanto estou doente para que ainda o não tenho visitar. Muitos beijos Teu Tomas P.S. Sabes que morreu o Luís Queiroz, com um cancro nos pulmões? Tinha casado há meses e a mulher espera um menino. Vertical: Também morreu a [i]. |