Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]

Minha Querida Maria Antónia

Aí te vai o postal, que nada adianta.
Recebi os meus sonetos antigos. No ralo
só estavam esses, mas são muitos mais,
que não sei onde param, nem me interessa.
Levo adiantado outro Poema – Viagens
no Meu Reino, cheio de coisas belas…
mas que também nada me interessa.
o pior é que assim que o acabe estou condenado
a seguir escrevendo, para descansar a cabeça,
e sem que nada lucre.
Recebi, pelo Natal, cartas e cartas, cartões
do Américo e do Leal…
O Camilo falou dos 110 amigos que contava,
e que, caído na desgraça, o abandonaram,
ficando só um. Eu, se supunha contar 110,
verifico que eram 220, que seguirão fiéis,
mas nada aproveita com isso esta cabeça,
que parece ocupada por demónios.
Há dias foi o Alberto de Serpa, do Porto,
que prometeu vir vizitar-me. Muito simpático,
mas…Esse, conseguiu curar a Mulher e a
Filha, mas um Filho, não. Lá o tem em casa,


com a "demência melancólica" que é, mais ou
menos, o que tenho. Inteligência lúcida e impotente
ante o enlouquecimento dos sentimentos, impotente
ante o sofrimento físico de quem, há dois anos
e meio, tem os músculos contraídos, os nervos
doentes, que apertam tudo, a principiar
pelo coração, já cansado, que não irriga
já conveniente o cérebro e as extremidades.
Estou adormecido. As mãos e os pés
mal os sinto. E, assim, nem o frio nem o
calor. Estou curado como um presunto. Há
dois meses que estou com tonturas, tonto,
como se acabasse de levar na cabeça uma
grande marretada. Curar-me, só poderia
curar-me a natureza. Em remédios ou
médicos já não acredito, posto que insista
com drogas receitadas pelo Polónio, e caríssimas,
mas que os médicos daqui me tem dado,
recebidos de amostras.
Quem me diria que havia de transformar-se em farmácia
a pessoa fortíssima que eu era.
Lembras-te dum caco de vidrado que eu
tinha no corpo, de quando em Ancora parti
um alguidar? Estaria, pelo menos, a três
centímetros. Pois já caiu, por ter desaparecido
a carne que o cobria. O pior é a contínua
e crescente tontura.

Muitos beijos do teu
T. Tomaz