Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]

Minha Querida Maria Antónia

Respondo à tua carta. O meu mal é não
poder ter sossego e ser forçado pela fixidez
dum sofrimento desumano a pensar sempre
na mesma coisa. Sei que estou lúcido, mas
preciso de dolorosíssimamente me forçar para
praticar qualquer acto lúcido, racional.
Estou ao contrário. Sinto errado, e o raciocínio
não consegue emendar-me o sentimento. Sinto,
daí o mal, que não tenho cura. Quer dizer,
sofro porque sinto que não tenho cura, e não
tenho cura porque sinto que sofro. Um círculo
vicioso horrível. Resultado, Adeus a quanto
desesperadamente amo, sem que o possa amar.
E, resultado, uma tal depuração artística
que faz de mim um fenómeno, uma coisa
nunca vista. A Arte, a Música, as Imagens,
correm-me do sentimento que não sinto como


A água da fonte. É tragicamente Belo, mas
o que importa é a resultante, quanto me
espera. E sei, no entanto, que estou só sob um
choque permanente, de ordem emocional.
É verdade que possa fazer um soneto
num minuto, e pode sair uma obra-prima.
Foi criminosa a morte psíquica duma
pessoa como eu, a qual, pese a quem pesar,
pese aos fáceis vitoriosos da vida, - valia
e, potencialmente, vale muito mais que
toda essa miolhada de sub-zeros que nesta
desgraçado. País fingem de gente.
Sim. Não pode haver dúvidas. Pela primeira
e última vez que um Homem de todos os tempos,
é possível que um Homem escreva numa
tarde 22 sonetos, e só não escrevendo mais
por sentir a inutilidade de ser Artista.
A minha obra antiga, essa falhou. Não


posso continuá-la, porque o pensamento
fixo num ponto não me permite, como é
compreensível, pensar noutros e recrear-se
com eles. O mal está em que nada me
recreia, nada pode alegrar-me. a vida,
que é o maior bem, é para mim o mal,
a tortura. Mal Empregado Público fui.
Mal empregado, porque era e sou gente, com
G muito grande. Interveio um distúrbio
Psíquico? Pois interveio, claro que involun-
tário. Nem de outra forma pode aceitar-se
que o valente que sempre foi se visse repen-
tinamente anulado. Se Deus, existe, não
tenho medo da outra vida. Mas tenho desta,
por me ver privado das naturais armas de
defesa para a enfrentar. Vai ser horrível.
Sei bem que o vai ser. E dentro do meu corpo
ninguém entra para avaliar, de longe que seja,


quanto sofro. Mas, acabemos com isto. Junto alguns dos
200 sonetos que eu (a pítia, as Sibilas, Apolo
em pessoa, Orfeu nos Infernos, Psychét?),
- alguns desses sonetos que a minha mão,
em transe cataláptico, escreveu. Ricas
coisas para os psiquiatras do futuro.
Havia, na Língua Portuguesa um soneto,
desses, o do Ângelo de Lima, que acabou
no manicómio, no terrível horror dos
horrores. Passa, agora, a haver 200
sonetos idênticos.
Adeus do teu

Tomaz