Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]

Minha Querida Maria Antónia

Recebi a tua carta.
Infelizmente, o meu sofrimento vai
crescendo. Com ele, a imaginação. Sei,
sem que a possa dominar, que tudo isto é
imaginação, mas imaginação do dolorosíssimo, sem
possibilidade de a normalizar. Penso que
sofro de todas as doenças, e elas, automáticas
e mentirosas, manifestam-se. Eu sei que
ninguém pode compreender isto. Nem eu.
Calcula que, ultimamente, me deu para
fazer sonetos. Automaticamente, chego
a escrever um soneto num minuto.
Parece que tenho um cérebro electrónico.


Numa tarde, cheguei a escrever 22
sonetos, e quase todos perfeitíssimos.
Não explico isto. Estou permanentemente
em Transe. O pior é que principio a
ter manifestações catalépticas.
É horroroso. Penso que sofro de
Metempsicose isto é, sinto que sou
outro, e este domina-me.
Continuo a receber cartas de
todos os pontos do país, chamando-me,
inútil. Só me fazem sofrer mais.
Caí no absurdo. Sem querer, estou a
matar-me. Quanto mais forcejo
por ser racional, mais irracional fico.
Tenho cegos os olhos da alma.
Muitas saudades do teu

Tomaz