
|
Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida]Querida Mitózinha Cheguei agora a casa e estou a escrever-te com um desconsolo, um mau estar, um vácuo imenso na alma que tão habituada andava cheia de ti, do teu afecto, da comunidade dos nossos sentimentos e aspirações. O esforço que fiz sobre mim para me dispor bem, para me abstrair – na última meia hora que aí estive – como antinatural, pois sói se está bem quando se está, - e nada pode a vontade destes casos – o esforço dizia, teve o efeito passageiro dos balões de oxigénio, - Abandonado aos meus pensamentos [i] com as tão vivas recordações do há pouco, bem depressa os efeitos da auto sugestão com que me violentei se dissiparam e mais foste viva e mais corrosiva e mais revoltada surge de novo a impressão dolorosíssima de te saber [i] tão independente do meu pensar e do meu sentir. Achas que dou as silvas a importância que não merecem. Não [i] porque o que tens e queres ter [i] com elas é que me afasta de ti. Posso lá sequer pensar que discordas de mim por causa delas1 Que sofras sem nojo que elas te vejam. Que não tenhas a mesma repugnância que eu sinto. Já pensaste que tu colocas elas contra mim? – Porque se tu neste ponto partilhares os meus sentimentos, nenhuma aversão lhes ter na [i] então a atitude sensata, - Ignorar que existiam. Achas apenas devem ser-me indiferentes – elas, que são um contínuo motivo de discórdia entre nós? Não. O que é preciso é que não sejas por elas – contra mim. Meu Deus! Pensar por quem me trocas! Tão pouco sou para ti e tanto são para ti? Achas depois [i] Desejo de as ter léguas distantes de mim! – Até pelo ridículo resultado incomensurável que resulta – Nos dra- malhões românticos, dizer-lhe, - Separa- nos um abismo. E no nosso caso, - Separam- nos as…as silvas!!!! Ter eu que ter ciúmes, pois que o teu afecto não é todo para mim! É também para as…Silvas. Vou deixar de falar delas pois sinto que não podia conter-me e não sei o que diria. Deves de tudo isto concluir, que não posso levar a bem, que com perigo para o bom entendimento que entre nós deve haver, evita colocar-te ao lado delas. Ira! Que vão para Viana ou para a Sibéria. E não quero falar delas, uma vez mais sequer! Estou extenuado. Mas preferi dizer-te
Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo. |