Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida].

Minha Querida Filha

Aqui me tens ao responder-te. Que te hei- dizer??
que te hei-de dizer que já não saibas, meu
amor?? que Deus te abençoe e ao filho que
esperas.
Descobri já o que tenho e tão diabolicamente
me faz sofrer. Tenho a vontade "ou contario"
"forçada" e invenável, a obrigar-me a sofrer,
e não posso contrariá-la, a inteligência tem, por
cada caso, de impor-se. E não saio disto,
dia a dia pior. Caí no poço do sofrimento.
Assim, condenado ao sofrimento forçado, só
me posso distrair a sofre-lo, pensando nele.
Para, de longe, de muito longe me aliviar, escrevo-o.
Assim, em oito dias, escrevi qualquer mostrengo
forecido com um romance…Assim, em quinze
dias, deitei-me, em transe de angústia, duzentos
sonetos…
Penso – heroicamente – que não deves vir
aqui visitar-me. eu teria ainda um choque


muito mais violento do que tive com a tua carta e
a noticia que me dás, e tal choque, certamente,
não deixaria de te ser prejudicial. O que eu
tenho sofrido, minha querida Filha, e o que tenho
ainda a sofrer!
Claro que, como quero tudo ao contrario do
que deve ser, e é, nem por sombras aceito que
nada do que tenho feito seja publicado!
Há casos horrorosos.
Olha. Vou copiar-te umas páginas do
tal romance-mostrengo.
Abraça e beija por mim o teu Manel.
Também dolorosamente te beijo o teu

Pai