Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo a [data desconhecida].

Minha Querida Filha

Aqui te vai o beijo saudoso de teu pai, minha
Filha, pelo dia de amanhã. Sabes quanto é
Saudoso, e melhor o avaliarás daqui a muitos
Anos, quando tiveres sem reflectidade sobre este
pai distante e
coitado de muitas dores que luta e lutará
por deixar aos filhos um nome
que os honre, herança que ninguém poderá
tirar-lhes, perpétua, e herança de coração, que
também antes de tudo,
sem coração fica.
Ando a ler – vou quase no fim – as Memórias
Biográficas de Garrett. São três volumes gordos.
Possivelmente que em
parte escrevo influindo pela leitura. Irra, até
preguiçosos chamaram a Garrett uns e muitos
seu hores então são portantíssimos, que hoje ninguém
sabe quem fossem bebidos pelos canos de esgoto
da História, estrume… Quanto a
Garrett, vêem o todos
os dias aí na Avenida uns milhares de pessoas,
vivo e trocista, trocista. E enquanto houver língua
portuguesa e correcção, há-de sempre haver
quem se comova com a Joaninha dos olhos
verdes, quem ria das várias carituras que
deixou de variados contemporâneos que
foram astros e que se apagaram.
Bem. Mais umas goladas desta pólvora
a que chama chá.


Aqui te mando este resto de fotografias. É um
resto, mas sempre é mais um apontamento
da minha querida Patotinha.
Recebi a carta da Maria Rosa. Parece que
não gostou da fotografia grande. Pois eu
gostei e gosto, de estar naturalíssima.
O Tomaz passou aqui, mas só lhe falei
uns segundos. Estou sem lhe saber a morada,
o que me tira de poder ir passar com
ele o dia dos anos, que é já no Domingo.
E se tu, logo ao receberes esta carta, me
mandasses um postal, nas linhas, a dar-me
essa morada’’ Chegaria aqui no dia 13, e
ainda poderia prevenir o Tomaz para
de que ia visitá-lo…

Vertical:

Perdia a verdade o valor de verdade
por ser Severinho a gritá-la (defardá-la)
(encristar-se)

 

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria Antónia de Figueiredo.