Tomaz de Figueiredo a Maria Augustina a 28 de Janeiro de 1955

Minha Senhora e minha admirável amiga

Principio, de verdade, por queixar-me da sua letra.
Recebida a sua carta, e lida custosamente pela
ruma, hoje só, porque só hoje o empregado
público
arranjou tempo, hoje só a li. E, para isso,
para que lhe sopesasse o conjunto, dactilogra-
fei-a às apalpadelas e à lupa. À lupa, foi à
lupa. Desesperou-me, e em Lisboa me desesperara
já o original de “A Sibila”, quando tentei meter-lhe
bem o dente. Já compreendeu que sou dos inca-
pazes de jurar na fé dos compadres, dos que
precisam de meter a mão na chega do lado: Tomaz –
- Thomé…Se é verdadeiro imprimirem os nomes
personalidade…Miudinho, peco, só confio na
exactidão da pesagem da palavra dos cartuchos
com que caço. E, milionário que fosse, nunca
poderia ter uma secretária (à, o) que dactilografasse
os originais dos meus livros. Até porque, à
terceira ou quarta cópia, se feita pelo autor, acaba
por luzir o adjectivo preciso, o único (o melhor é
o único bom), o que procurou e sempre se lhe negou,
o que tinha debaixo da Língua. O encontro do termo
exacto vale-me o achamento dum tesouro: ganhei

o dia.
Se é uma queixa da sua letra, ou, antes, do fechado
Silveiredo de escrita de quem apertou em 98 quartos
de papel (98! Tomaz – Thomé…) um romance que
rendeu 285 páginas atochadas, - não é este começo
nem sequer a sugestão de que preferia ler dactilo-
grafada a sua carta. Depois da aflição da lupa e
da adivinhação, vi que breve seria capaz de ler
tão familiarmente como a dona a ensilvada letra.
A minha, aliás, também a dizem maligna “música”
e as pessoas a quem frequentemente escrevo
afizeram-se, deixaram de se queixar. Habituei-as.
E nem mereceriam amizade, nem que lhes escrevesse,
a não quererem habituar-se.
Bem. E agora digo-lhe que fiquei de cara
açafroada (V. Camilo, algures, talvez no “Homem de
Brios”), ao depreender das suas palavras que talvez
Eu me julgaria credor de sua gratidão. Penso que
só pode haver gratidão, que só é devida a quem
nos concede o que não merecemos, e eu sou bruto,
frio, incapaz de esmolas de louvor literário. Repito,
ou admiro, e, no seu caso, admirei. Gratidão me
devera outro dos concorrentes, se, desonesto, tivesse eu
a favor dele, a justiça. Ora sou “uma forma de
autêntico”: um penedo que não há bimbarra
que desaprume e force a rolar. Não muito velho,
mas também já não muito novo - ai de mim!

Muitas vezes medito em que, essencialmente, ainda
cheguei a viver na Idade Média. Pela ética, pelas
“regras do jogo” pela própria educação que se
chamava “criação”, não estariam os primeiros
vinte anos do século mais perto da Idade Média
que está deles a do Jesuitismo Vermelho?
(esta do Jesuitismo vermelho cá me fica)
vivi quase na Idade Média. Daqui vem que, por um
amigo, me tenha manchegamente conseguido trinta
ou cem inimigos, que todos esperão do tempo a
possibilidade de fisicamente me baterem sem
perigo de maior.
Dos amigos “inactuais” é que nem sei a conta
dos que terei, e são os perfeitos porque sou eu
neles, são os meus duplos. E, desconhecendo-me
sem que possam descobrir-me as fraquezas –
teem-me pelo que fundamentalmente sou: pelo
que quero ser e tanta vez não sou. Por isso lhe
peço agora piedade minha amiga romancista
olha e vê, arrecada…É a segunda pessoa –
digo-lhe – que assim perigosa encontro, e a outra:
Eu. O “fosso das víboras” que viu também o
vi. Ricos apontamentos! Mas ver dói. Quantos
doutros apontamentos eu agradeceria a Deus
não ter sofrido disso a que chama “insalubre
e maligno” desta geração escreveu “maligno”.
Talvez sem que tomasse bem o peso à palavra ou

tê-lo-ia tomado efectivamente? Da romancista
de sigila espero tudo – Maligno – demoníaco.
É o diabo teológicp, esse todo, que anda entre
nós. Duro e incomovível, a só palavra “espírito”
queima-o. É ele que por aí anda, porcalhão, de
cabelo crescido e barba por fazer, de calças
joelhudas, honrando-se de porco, o porco de honra.
Ele todo, o pau mandado, o passado a papel
químico, o que não raciocina, só narra. Aquele
que exige direitos de cidade para com esses direitos
negar a mesma cidade. O incapaz de amor.
Espere a minha amiga dois anos, que a esse
tenebroso
hei-de eu pintá-lo, denunciar-lhe os
chifres e pés de bode, tal como a outros anteriores
- os actuais do tempo – denuncio na Gata Borralheira
onde acontece aquilo que leu na 4 Ventos? –
Perguntou-se. – Pois em Portugal. “E depois e
depois?” – Depois, e crescendo, depois e se
a justiça pode ser cruel, tudo é crueldade e
dentada, amor também julgo que escrevi – e
de longe – o mais cruel e o mais de amor romance
português.
E a minha amiga em que trabalha? Penso que me
não fará a injúria de me supor modesto, no sentido comum.
Posso agora, sem que me julgue adulador, dizer-lhe que
espero mais de si do que de mim. Beijo-lhe as mãos e sou o muito
dedicado

Tomaz de Figueiredo

[Na vertical:]
P.S. Acabei de ler há dias o romance dum “Prémio
Nobel”, dizem que uma obra prima. Do Hemigway
apareceu sob o título de “Fiesta”. Achei de carregar pela
boca e de pederneira uma obra-prima, aquilo?! Não me
levará com ele.

Tomaz de Figueiredo
Estarreja 28/1/1955