Tomaz de Figueiredo a Maria Agustina Bessa-Luis a 24 de Fevereiro de 1962

Minha Querida Amiga

Se a “melancolia” caracterizada, a que
estampou o Dürer, me libertasse a
alegria, a do casado selvagem que fui,
seria com a dobrada alegria sentimental
e intelectual que lera a sua carta e
me confirmara da amizade que justa-
mente lhe merece o campeão da Beleza
vitimado – e consequentemente – pelo
amor de Beleza a que, puro e até heróico,
de sempre se deu.
A sua carta chegou quando meditava
um artigo (hoje, aos artigos chamam-lhes
“ensaios”) em que falaria de Agustina
Bessa Luís e dos seus críticos. A
suficiência analfabeta, mais do que
nunca, me é insuportável. Bruto
sensível, poeta que foi temido na
pancadaria, dão-me ainda ganas
de desandar à bofetada. A doutrina

desse artigo, porém, acho preferível
guardá-la para quando venha a Lisboa.
Sei que sabe, mas exilo-lhe que firme
que eu sou a Lealdade e a Fidelidade.
A partir do valor destas palavras,
conversarmos. Pessoas como a Maria
Agustina e o Tomaz de Figueiredo, seguem
independentes e fraternas a fatalidade
das Letras. O Tomaz de Figueiredo
jubila sempre com a aparição de
quem valha a pena. Capaz da maior
admiração é incapaz de inveja. Defende
que há ar para todos, só questão de
pulmões.
Vou mandar-lhe “A Gata Borralheira” e
um apontamento do teatro, “o visitador
Extraordinário”. Penso que lhe mandei
(Se a cabeça, hoje torta, me não atraiçoa)
a “Conversa com o silêncio”. Diga, porém
que ainda restam uns exemplares desse
livrinho muito sentido.
Saberá que também deixei Guimarães Edit
na Páscoa vai sair o primeiro volume

dos dois de “Dom Tanas de Barbatanas”.
Foi-me proposta a edição de umas
obras completas, à razão de Três
livros anuais. Em principio, aceitei-a.

Há tempos, disseram-me que tinha
estado na “Brasileira”. E que eu
já entrei nessa ocasião. Claro que
não reparei.
Envio-lhe o Pedido de Admissão da Comunidade
Europeia de Escritores.
Olhe o grande milagre de lhe devolveram
a carta, de Mortágua! Pois se o
Boletim da Sociedade de Escritores está
gatado! De Mortágua é o Tomás
da Fonseca.
Minha Querida Amiga, adeus, e
veja se por cá aparece.
Saudades do

Sempre
Tomaz de Figueiredo

[Na vertical:] Lisboa – Avenida Elias Garcia, 134 – 3º
24/2/1962