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Tomaz de Figueiredo a Maria Agustina Bessa-Luis a 18 de Junho de 1962Minha Querida AmigaA demora em lhe escrever e em lhe mandar o primeiro (primeiro!) volume do "Dom Tanas de Barbatanas" atribua-a à pancada na mola que tanto me tortura, que implacável me esbraseia o sistema nervoso central, o comandado por isso que ninguém sabe (a Agustina saberá?) alcançar e que se chama alma. Pois – até que enfim! – aí lhe vai a primeira parte da Crónica Heróica do maior fidalgo que houve (couve) e que de nome completo se chamou Dom Tanas de Barbatanas Racha-Penedos e Arinca-Pinheiros Merda-Seca e Come-Gente de Roncalto e Gargantónia Azurraclaro. A segunda e última parte do "Magnífico e sem Par" sairá para o fim do ano, depois da segunda edição de "A Toca do Lobo", que não deixei de lhe mandar e muito gostaria comparasse à primeira. Uma escaroladela a sério na minha escrita ainda tão rudimentar em 1945. Não sei o que terá pensado de "A Gata Borralheira". Pensaram muito lisongeiros, em princípios, e muito severamente, en la aplicacion del cuento, os do juri do “Luis do Rego” e os do “Camilo Castelo Branco” dando-lhe “sopa”. Muita “sopa” temos nós levado, minha admirável Amiga! Como tudo corre agora ao invés – papo a papo a galinha enche o grão -, esperemos. Podemos esperar. Eles, não. Assim: as caravanas ladram e o cão passa. Passará. E até já passou. O mais é Passará. E até já passou. O mais é cortina de fumaça…(Reparo que rimei. Não emendo). Isto, por cá, vai a mexer-se bastante. Os “partisans” deram a casca toda com a “descamilização” ou “incamilização” do Alves Redol. Oiço que vão fazer a barraca”. Deixe zangados comadres. O Órfão Portela (viu?) disse há dias no “Jornal de Letras e Artes”: o Neo-Realismo apoderou-se da maioria das posições-chave da vida literária portuguesa: editoras, páginas literárias, júris. Aí exerce uma rigorosa pressão e organiza uma hierarquia de valores. Aí se negam ou se diminuem cuidadosamente sólidas figuras solitárias que escapam à sua disciplina. O destino do escritor português é o Neo-Realismo ou o anonimato. Por conseguinte, o terrorismo da litera- tura piolhosa. Por conseguinte, a ditadura dos quadrilheiros das Letras. Mas a fatalidade da Justiça. O “Luís” dado à super-borracheira “Domingo à Tarde” enterrou o prémio, o generoso prémio…(36 contos não pagos de direitos de autor: generosidade – 4 contos…) Muito salsas ondas lhe desejo aí. Eu, se quisesse (o terrível é nada querer, nada amar) estaria na minha Casa de Arcos de Valdevez, aonde não vou há sete anos, aonde não voltarei, ao menos com alegria: vivo. Vinda a Lisboa, apite, sem falta. Peço me recomende a seu marido. Amigamente e com admiração, o Tomaz de Figueiredo Lisboa, 18/6/1962 Avenida Elias Garcia, 134 -3º Lisboa -/ |