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Tomaz de Figueiredo a Maria Agustina Bessa-Luis a 18 de Maio de 1958Minha Querida CamaradaE, mais ainda, Querida Amiga: Deve estar mais que surpreendida com o meu silên- cio. Nada menos que dois livros me enviou, e eu nada! Algo de noite grave aconteceu na minha vida –di-lo tal silêncio – para que tal acontecesse. Expiações: não os li, porque vão passadas dois anos que não leio uma linha, como não oiço uma Luta de música: horrorizam-me, ferem-me, traumatizam-me. Também há dois anos não vejo a minha filha mais nova. - Linha Geral da Angústia e da Inibição, There are more Thinks in the heavens Horatio… Enfim. Estou lucidamente louco e passei pelo Telhal, por lhas casar de saúde. Do Quixote que me conheceu, não se admire de nada. Se eu era, e sou, sobre- naturalmente natural, irmão das estrelas! Anda o diabo no mundo e eu encontrei-o: comeu-me. Tarde, embora, mas puxando pela fidalguia que me luz, como sol e eclipsado, escrevo- lhe. Quer um espantoso romance psicológico, que eu, por estúpida inibição, não posso escrever? Quer ultrapassar o Lostoievsky? Pois venha até aqui, pelos dias que quiser. Eu sou esse romance. E aborrece-me que um dia venha a ser burguesmente lido por olhos imbecis. V. e seu marido têm aqui, pelo tempo que lhes aprouver, cama, mesa e roupa lavada. E V. tem a mina de um romance que deitará a um canto – seu Lostoievsky. Acredite na minha imparciabilidade de crítico literário, que ainda sou. No mais, loucamente lúcido, o ex pensionista do Hotel do Telhal, mas sempre talon rouge, espadachim, com a-fundos à Robert de Flers. Três causas me levam a escrever-lhe. - A reparação duma falta, aparentemente indesculpável; o amor das Letras; a necessidade de ver o meu ingénuo e trágico caso em boas mãos. No fundo: sempre eu: a minha personalidade [i] mas renitentemente refilona, sob as palhas apodrecidas da vida. Aliás – coisa da Idade Média e de Fontenoy – uma coisa só me interessaria: mourir en beauté. Se a ocasião apare- cer, não a desperdiçarei. Creia-me, com um fraternal abraço, o seu sempre Quixote, Tomaz de Figueiredo Estarreja, 18/5/1958 [Na vertical:] Nota: Se me responder, faça-o à máquina, porque eu até a vista perdi. Tomaz |