Tomaz de Figueiredo a Maria Agostina Bessa-Luís a 17 de Março de 1955

Minha admirável Amiga

Aqui tento hoje mostrar-lhe que, sopeando a
angústia, consigo talvez impor-me serenidade.
Trouxe-me a sua carta quanto pediu, mais até,
do que julgou possível. Deu-me força, acredite:
ou, melhor, ajudou a força do fisicamente saudável
que sou, e que no moral partilha, se compatível,
de cristã e de estóico. Preciso manter-me de pé e
hei-de manter-me.
Nada mais soube do meu filho. Ele vencerá com a
idade, a inteligência e Deus, a crise demoníaca.
Tem de sofrer, naturalmente, e depois nem
seria difícil que desse em santo, que para isso
tem virtude e estatura. E olhe que não é cegueira
de pai, não: o pai, comparado ao filho, pouco
vale.
Felizmente que o frio passou. Tantas noites a
lembrar-me do frio que estaria a sentir, mal
agasalhado…
Aqui lhe incluo, minha Amiga, - e a prova de
começo prometida – uma crítica do António
Quadros ao seu livro. Lembro-me que é o
Diário de Notícias pouco lido no Porto, e podia
escapar-lhe. Creia – e de toda a alma – que tudo
quanto se escreve a respeito de “A Sibila”
o leio e saboreio com interesse igual ao que

sobre livros meus aparece. Encho os pulmões
de optimismo sempre que oiço apregoar
“A Sibila” romance excepcional, e até por
orgulho: não me enganei, ao julgá-lo: sei
ao menos, conhecer o que é bom.
Decerto ignora que também o António Quadros
concorreu ao prémio. Honra, assim, é de
prestar à sua honradez.
Também o “Tetracórnio” do José Augusto
França, menciona o seu livro. Transcrevo-lhe
a referencia do Jorge de Sena. – “…uma
Bessa Luís, em que, talvez como em ninguém na
prosa, se fundem numa ardência lúcida todas as
tendências que viemos descrevendo em cinquenta
anos de prosa, iluminadas por uma consciência
muito contemporânea da narrativa tradicional.”
Digo-lhe agora que principiei há dias o romance
de que lhe falei, e que prometi. Chamar-se-há
“Vento da Noite”. Assim o amor de pai valha ao
romancista.
Aparecerei em sua casa, sim, logo que vá ao Porto e
aí disponha de umas horas. Telefonarei: Muito agradecido
pela sua hospitalidade. Mas, agora, estou aqui pregado
aqui sempre ansioso. Não me aparecerá, não poderá
aparecer-me aqui o meu filho, sair-me do escuro, qual-
quer noite?...
Peço-lhe muito, afectuosos cumprimentos a seu Marido.
Beija-lhe respeitosa e amigamente as mãos o

Tomaz

Estarreja, 17/3/1955