Tomaz de Figueiredo a Maria Augustina Bessa Luiz a 17 de Janeiro de 1955

Minha Senhora e Muito admirada
Camarada e Amiga

Chegou o dia de lhe agradecer A Síbila,
recebida naquele poço de Lisboa onde,
por muito que se destine fazer, nada se
faz. Espero me conceda que ainda a tempo
virei de lhe agradecer a dedicatória que
tão fundamente me comoveu. E, ainda a
tempo – os tais males que vêem por bem-
pois que posso acrescer a esta carta
um “químico” da resposta a um questio-
nário que o Óscar Lopes me propôs e que
destina à revista “Lusíada”.
A título particular e confidencial vai, e
que me valha o perdão do meu aparentemente
ingrato silêncio. Por ela saberá que,
em Lisboa, passei os olhos pelo original de

"A Síbila". E é a minha vez de dizer:
Impressionante!
Pudera eu escrever assim! Que inveja,
creia: mas a inveja honesta, a inveja
boa de quem admira.
Do seu livro que ouvi em Lisboa
até aqui em Estarreja – aqui, dum engenheiro
que, por excepção, consegue ser engenheiro e
também gente – as mais entusiasmadas
referências. Alegra, isto. E A Síbila,
afinal, quem a conhece já perfeitamente?
Quando um livro tem sumo, não é a
primeira e Sofrega leitura que todo se lhe
apreende. Se, lido aí umas cinquenta vezes,
o Eusébio Macário me traz ainda surprezas!
E é um livro singelo. Que dizer do
Bernardos complexos? Ou do Mann?
De há muito, e desesperado, cheguei à
conclusão, pela parte que até me toca
na roupa, de que nunca um livro será de
todo apreendido pelo leitor. O leitor anda,

vira a folha, distrai-se, é interrompido,
atende o telefone, ou vai jantar, e deixa
ameado um capítulo. E a intenção que
nele pusemos, na própria subtileza duma
palavra, que só podia exactamente ser
essa, tudo lhe passa, distraído, por
leviendade, quando não se trata de bácoro
indiferente a pérolas.
Aí tem pelo que li já três vezes A Síbila.
E outras hei-de lê-la, que a sua apreensão
estará ainda muito crua.
E agora, porque não pode deixar de inte-
ressá-la, - Sua pensão de escritora…
dou-lhe a notícia de que terminei, há uns
meses já, a minha “ambiciosa” Gata Borralhei-
ra, que não é o brinquedo que só quis
fosse a Procissão dos defuntos. Vou revê-la
martirizá-la durante este ano todo, pois
só a quero na rua em Dezembro. Se eu
fizera o que tanto sonhei! Mas, conheço-me

lirismo (guitarra) a mais nos meus livros,
cérebro a menos. Acabou-se. Não posso
voltar a nascer.
Peço-lhe muito amigos cumprimentos
a seu Marido. E sou o “invejoso” admira-
dor que lhe beija respeitoso a mão,

Tomaz de Figueiredo

Estarreja, 17/1/1955