Tomaz de Figueiredo a Maria Agustina Bessa-Luis a 9 de Setembro de 1959

Minha Querida Amiga

Fui sempre o homem das tarefas e,
agora, à falta de melhor, mas porque
tenho de dar acção seja ao que for,
ando a dactilografar essa livralhada
inconcebíveis que escrevi, recuperada
a possibilidade mecânica a poder
de teima. Assim – hoje, amanhã –
só agora venho agradecer-lhe a
vizita de há dias. Muito gostei
- sei que muito: sabendo-o sem o sentir
de a ver e a seu marido, de
ver o lírico Fausto e até o
retorcido Régio.
Acha que estou muito melhor, não

acha? Todos acham, menos eu. O
caso é que estou bem, sem o sentir,
e, assim, sempre que oportuno e
possível, continuarei a ser a voz
da Justiça que fui sempre. Para
tudo passei, menos para esse sentimento,
que todos os demais abafa.
O poder do Régio, coitado,
ouvia o que ninguém tivera ainda
a coragem e o panache de lhe dizer.
Pois que vá ser romancista, para o
raio que o parta!
Eu queria era libertar-me deste
capucho de fogo, mas tenho de seguir
com ele. E agora, em vez de
hipnóticos – que me escavaram ainda
mais a cabeça – Leio até me cair
o livro da mão. Ontem à noite
- e aos punhos de justiça – li tudo

o “État de Siège” do Camus.
Ora aí está uma peça que a
Dona Censura não deixaria cá
representar. Livra! A Peste
a mandar! Até pareceria
piada directa, equivalente
ao “branco é”.
Minha Querida Amiga, adeus.
Um grande abraço a seu marido.
Sou sempre o camarada e
admirador justo,

Tomaz