Tomaz de Figueiredo a Maria Agustina Bessa-Luis a 9 de Julho de 1958

9 de Julho 1958
[Data do correio]

Minha Querida Amiga

Lida, agora, a sua carta, ou agora lhe respondia,
ou talvez nunca: sempre à espera de que pre-
valeça o essencial de circunstancial de poder
- e com alegria – falar na antomática
re-posse do eu. Mas…há dois anos que o espero…
Príncipe, todo o humano o é, aliás, enquanto
possui a Deus. Por isso julgo que o deixei de
ser, ou, então, há em mim um Deus penado.
Mas continuarei a sê-lo na proporção com que
sofro, o que infinitamente o agiganta. É
compreensível que de tudo, faça hoje uma
ideia desmesurada (falsíssima), a razão
do progresso da doença, que dia a dia mais
me escurece a alma. Serei um Príncipe da
desgraça tanto como o da Luz, o Lusbel
que passou a Lúcifer, continuou a ser
Anjo.
Mas é preciso que me deixe de símbolos
- a cousa, teologicamente, espero que seja menos
grave – e que aceite o verdadeiro, que estou

doente de alma, do élan vital dos psiquiatras.
Falta-me o "élan", e, assim, não ando,
arrasto-me, aborrecido (ab oris coecidi).
O mesmo que “pela boca morre o peixe”.
E “peixe” é Cristo…Foi também açoitado,
crucificado, e, hoje, é o “Senhor exposto”.
Que espantosamente lúcida a sua carta é,
minha Querida Amiga. Só não tem em conta
que a “Melancolia” é o mais ruim mal,
o de impossível cura. Ninguém o sofre por
gosto, e precisa, a cada instante de Lúcifer que
não sofre, o que é inarrável. Acredite que
muito herói tenho sido. À minha Amiga, não
fingi. Para me fingir são, para a enganar,
nem eu lhe teria pedido que viesse. Apenas,
dada a conta em que a tenho, e desde que eu lá
não posso escrevê-lo, quis dar-lhe assunto para
um espantoso romance de sofrimento, do sofrimento
da humilhação – escrevo a palavra – da humilhação
tão funda da alma que ela fica transida,
assombrada, ao ponto de não ser sentida. O romance da
obnubilação do amor-próprio, que obnubila
o amor a tudo: pois que tudo amámos em nós.

A substituição da alma pelo horror, e uma
alma horrorizada é uma alma infernada.
Virá ela a intervir? Não o creio – o mal,
o desespero – e nenhum caso consta dos livros.
Acha a minha Amiga que tenho poderes
de Deus?
Mas eu que, escrevendo, saio do observado até
aqui (o Príncipe que teima!) será que a alma,
por si, intervindo, se desembrulha?
Psicologicamente, a Maria Agustina tem razão.
Só põe de parte o choque e as suas consequên-
cias fatais.
Cura? Só a de, naturalmente, passar de abstracto
a concreto, e a abstracção aumenta: parece
que ando cataléptico. Cura, a de olhar natural-
mente para fora e não forçosamente para dentro,
em deixar de estar internado. Vê que já vivo
num manicómio (internado)?! O caso é este:
a inteligência está lúcida, a alma está louca:
louca de dor, o que não é figura retórica.
Assim, eu sou a pena. E, se a sou, se-la-hei até
à morte. Repare: a inteligência funciona mas
a mente (mens) não. Paralizou. O sofrimento, até, lá

é que reside: sinto-o nos seios mais frontais: na
parte nobre do cérebro.
Que há, no fim de contas? Um mal abstracto,
portanto sem razão de ser. Há uma permanente
e crescente emoção dolorosa. Que me dói,
afinal? A consciência de que não tenho cura,
e, deste feitio, não a posso ter. E, inteligente
como se fica neste estado, além de terrível
observador e dissecador, das meias palavras
de sete médicos que me trataram também o
concluí. Aquilo de a doença funcionar
matematicamente…E este desprezo de mim,
quando noutros tempos nada esquecia!
Além – a fábula agora invertida de Narciso –
tenho pena de mim e fujo de espelho.
Estão a abrir-me com uma romancista e com
uma amiga, não as quero enganar.
Fingir para os outros? Decerto. Na medida do
possível. À “trágica” o “lírico” entrega-se o
poeta do amor entrega-se-lhe, e, compreendendo-o,
aproveite, se achar bem, o inesgotável assunto
duma alma que a tudo amou e que a nada
pode amar, que, assim, se perdeu de tudo.
Mas a Maria Agustina quer intelectualmente

salvar-me e põe-me ao peito a faca do interesse
pelas expressões do espírito. Repare que a
minha “Imitação de Cristo” a dei a uma senhora
na casa da Luz.
As suas palavras – digo-lho – penetraram-me
fundamente a inteligência, tanto ou mais que o
desejou. A alma, não! São belas, muito belas
- a minha admiração por si só não cresceu
por já não pode ser maior – mas não há
nem pode haver nada que supere a beleza da
nossa alma. Beleza superior, só a da vista
e posse de Deus: esse o choque estético necessá-
rio. A alma já não se contenta com menos, e
precisa de libertar-se da carne: que só lhe é
Trambolho.
Mas intervirá ela, por natural reacção,
- Sibila? Já tarda, e o corpo está a atraiçoá-la
não comendo.
No entanto, eu que já não creio em mim, fiquei
com certa esperança ao ler as suas últimas
palavras. Só que a “trágica” passou a “imaginadora”
a quase “lírica”…Escreveu-as aquela que
disse que sacrificaria a vida para me salvar.

Sabe? Eu, antes, penso que confiava em Deus.
Se Cristo disse que nem um cabelo nos
cai sem que Ele consinta…
Como consentiu ele uma bestialidade assim?
Tudo é misterioso, hoje. A ciência
repele a Astrologia…E, aí! aí! aí!
Repare: Quem, se não uns magos, viu
e interpretou a estrela anunciadora
do nascimento de Jesus? Eis uma
frincha do Evangelho por onde ninguém
ainda espreitou.
Beija-lhe, muito comovido e agradecido
a mão amiga o

Tomaz

P.S. O sentimento e o corpo funcionava eu
anormalidade normalizada. Quando se acorda,
o sentimento de dor é, puramente, neutro.
Depois é que se adapta às circunstâncias, às
mutações do pensamento. Na essência, quem
sofre é a afectividade inibida.

T.