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Tomaz de Figueiredo a Maria Agustina Bessa-Luis a 2 de Junho de 1958Minha Querida Amigade Junho 1958 [data do correio] Sempre que o meu “eu”, inibido, se impõe ao sofrimento desesperado e se força a ver, tome, se obriga a “ser” – embora temporária- mente – esse “eu”, afogado, sofre terrível- mente, como se de si, violento, puxasse e arrancasse o demónio intruso que assombrasse um anjo. Mas força-se, às vezes porque ele só é verdadeiro, racionalmente inconciliável ou com o “estupor”: o absurdo a que a mais terrível das doenças psíquicas pode levar. Força-se, em defesa da “essência” e lutando com o irreal real. Assim, neste estado de espírito, lhe respondo, bem agradecido pela sua “quase compreensão”. Por outra: pela sua total compreensão que, realmente, ultrapassa a dos psiquiatras, à parte ignorar que há doenças psíquicas que, a um tempo funcionou dentro da matemática e fora da lógica. Um = Zero. De nada me serve ser, como sempre fui, o “homem da justiça”. De nada me vale estar hoje, pela indefinida psicanálise a que me sujeito, muito mais inteligente do que era. Não é com raciocínios que eu sacudo, uma doença que vai da melancolia aos paroxismos da angustia, que se reflecte em dores físicas insuportáveis…e que tenho de suportar porque o “artificial funcional” é hoje o meu “natural”. O fantasma das Letras, o meu fantasma, assombra-me, de facto. Mas é só um aspecto de “total” do “aboleto” do que estou inibido. Explico-me: da inibição de “amar”, que me emparelhou, teologicamente, ao demónio. Se beijo a testa duma criança, beijo pau, embora os olhos se me encharquem. Se oiço música, oiço barulho, e fujo. Mas, ante-ontem, ouvindo uns compassos da grande polaca do Chopin, levou-me o “delírio” a romper a cantá-la, ao mesmo passo que chorava e queria um pelotão de execução que me varasse no pelotão de joelhos e eu a abrir o casaco para que mais directas e mortais me varassem as balas. Crê que possa haver solução para o binómio “Loucura lúcida” ou “Lúcida i”: Os dois estados, opostos, anulem-se, e o “homem” fica “paralizado” e no sofrimento, amigo e inimigo de si próprio. Eu, de candeias às avessas com o Tomaz?! Não! O Tomaz é intangível. É um príncipe que saiu do resto que sou. Onde está? Nos livros que escreveu, na poeira de sonhos e de estrelas que se me ergueu no crâneo. era um astro de qualquer daquelas três grandezas de que falou Nietsche e no qual constelado com a Maria Agustina e poucos mais, rodeava a poeira cósmica do mesmo Nietsche. Explodiu. Caput! Venha, venha até aqui. Eu quero dar ao “primeiro romancista português de todos os tempos, que a Maria Agustina é, o mais espantoso romance do mundo. Ainda ninguém deu notícia, do “infernado”. Só um romancista infernal pode transmiti-las a uma romancista viva. A romancista merece o romance e o romance merece a romancista. Disse-lhe, creio, que não consegui ler os seus últimos livros. É verdade, - e que sofrimento! No entanto, numa aberta de vida que tive na luz, após dois choques insolínicos, li, sofregamente, 70 páginas da Muralha. Depois, entristeci, toldei-me, como observou uma gordíssima Senhora a quem eu chamava Madame sans gaine. E eu ainda a brincar, Maria Agustina, nesta horroroza agonia! Que animal de combate aprisiono dentro da mente e do corpo, inibidos! E a Maria Agustina conheceu-o, de peito encouraçado, de gravata de “knitak silk”… Ah! Que se eu pudesse tornar à vida! Quantos beijos e quantas bofetadas tenho de ficar a dever! Sabe o que deixo, mas, inibido, não quero publicar? Duzentos sonetos que fiz em quinze dias! Cheguei, uma tarde, a fazer 21! Que divinamente horroroso é um homem a esbravejar na camisa de onze varas do “impossível”! Em que braseiro se lhe tornou o peito e o cérebro! E, ao cabo: a mala pata, a má mão, a mão sinistra, a mão esquerda, - as terríveis e condenadoras linhas da minha mão esquerda: assinalada, estigmatizada: as linhas do cérebro e do sentimento em continuação, compreendidas, (como V., sem a ver, a viu!) e um terrível corte na linha da vida! O resumo é que, fora da vida, para sempre, tenho de desistir dela. Aonde irei acabar e como? Não sei. Como padeço dum dês-astre, penso que virei a morrer dum desastre: talvez um atropelamento. Como não atento em quanto se passa à minha roda, é possível e fácil. Racionalmente, desejo-o. Estou com 55 anos. Minha Mãe morreu com 93 posso, fisicamente, forte como sou, chegar à mesma idade. No sofrimento em que estou, e crescente, nem o concebo. Despeço-me, querida amiga. Viva e realize-se. Merece-o. Não a invejo. Mas invejo tantos e tantos “sacos de comida” (Da Vinci) que andam no mundo sem que sejam precisos e a quem viver não fazia falta… Beijo-lhe fraternalmente a mão o Antigo Tomaz [Vertical:] P.S. Estar lúcido é estar e arder… |