Tomaz de Figueiredo a Maria Agustina a 2 de Fevereiro de 1956

Minha Amiga Maria Agustina

Não sei se vou repetir-me, escrevendo-o, mas, se
sim, faço aquela boneca dos meninos do colégio
- também, naturalmente, das meninas – que eu bem
preciso de lha perdoar. Penso ter-lhe já dito que
eu, que nunca deixei o meu crédito por mãos alheias,
vim a encontrar na Maria Agustina talvez a única
pessoa viva e conhecida a quem, por justiça da
inteligência – e com alegria, sem indigna “inveja” –
reconheço superioridade. Assim, uma carta sua, que
vem mostrar que lhe mereço a consideração intelectu-
al de me escrever, acredite que vem aumentar-me a
vaidade: o orgulho, se preferir, e eu prefiro. Mais, se
ilumina parecidos recantos obscuros de mim próprio:
essa delicadeza, que também saberia ter, mas que raros
compreenderiam, de não me ter falado em festas felizes.
Não podia tê-las, não as tive. Pela primeira vez que
só sinto o Natal em dor, em vácuo, em miséria, em
humilhação: e humilhação que é, a um tempo, senti-
mental, social e intelectual.
A oportunidade das omissões é subtileza delicadíssi-
ma que só pode ser apreendida pelos aparentes réus
do mesmo pecado. A mim me aconteceu já isto: morrer
uma pessoa de quem eu era tão amigo como de meu

pai. Era das poucas, das pouquíssimas que eu subia
minhas amigas: sem dúvida a única daquela ideia.
E senti-me pobre, pela segunda vez sem pai, despojado
da compreensão, da justiça que me concedida, se eu
a merecia, dos conselhos, não de conselheiro profissio-
nal e burro, mas de amigo lúcido, tão lúcido que
até podia desaprovar-me sem me ferir. Pois fiquei
socialmente de pedra, não consegui escrever meia
palavra de sentimento à família, que nunca
me perdoará, tal como será incapaz de compreen-
der, menos de se comover e de me abraçar por eu
não ter podido mandar uns pesamos que, tanto como
a ele, me eram devidos. Nunca falámos do caso…
irremediável. Ainda há pouco, porém, duma das
pessoas dessa família, recebi uma estúpida parelha
de coisas: rebentação do ressentimento a pretexto
fútil e agarrado pelos cabelos. Retribui a parelha
e assim ficámos. Ora o que ainda hei-de, assim o
espero, é dar à memória desse amigo um livro
já meditado. Espero que a família conclua que
tive remorsos, que tarde piei, as não me importo.
Bom. Previno-a de que não é ainda um livrinho
que sairá pela Páscoa, dedo à lembrança dum
companheiro do Colégio.
Eu queria, agora, era que a Maria Agustina,
para que me vá conhecendo um pouco, soubesse
que eu sou, muitas vezes, um desastre da sociabilidade

urso, um malcriadão, no sentido mundano. Posso
escrever sucessivas cartas a um amigo, posso estar
anos sem lhe escrever. Quem me conhece já sabe e
compreende. Sabe que, esteja onde estiver, falador
ou mudo, atencioso ou aparentemente alheio, sou
sempre o mesmo com quem se pode contar aquele
que, até depois de morto, espera continuar fiel.
Claro que pago aos meus amigos na mesma moeda:
compreendo-os. Assim, nunca se me julgue obigada
a qualquer atenção mundana. Que escreva ou
que não, que me deseje festas felizes ou que as
deixe no tinteiro, mesmo que não, como agora,
por delicadeza, mas só por legítima preguiça,
- está no rol das pessoas amigas: existe. A
amizade, aliás, acho que pede esta desconcentra-
ção (eu queria era escrever descontracção): - e
não vou pegar na raspadeira nem utilizar a
folha!
Nada me disse do andamento do seu livro. Penso
Estará a ser composto. Ou não estará ainda a
máquina de compor afinada? É possível que
breve dê uma saltada Lisboa indagarei, apertarei
as cravelhas. Entretanto, vá se atirando a i
disse-me sem marido que não é capaz, mas
obrigue-se.
Acabo por lhe falar de mim. O meu filho escreveu

alguns dias à mãe, e muito afectuoso. Para ver
o que escreve é que tenciono ir a Lisboa. Tão
pouco, tão nada é, mas para quem nem isso
tinha…
Falei-lhe dum livrinho que sairá pela Páscoa.
Não lhe digo que seja para se não ria
de mim, vote alguma moção de deson-
fiança, pelo menos antes de o folhear.
A “Gata” é que, primeiro que tudo, a vou
rever e espanar. Trabalho para uns meses…
Depois, então, é que aceito o prometido favor
de a ler.
Peço-lhe muito afectuosos cumprimentos
a seu marido, assim como também lhe peço
que inscreva bem firme no rol dos amigos o
Muito admirador e dedicado

Tomaz
Estarreja 2/2/1956