Tomaz de Figueiredo a Maria Agustina Bessa-Luis a [data desconhecida]

Minha Querida Amiga, camarada de
Letras daquele que foi.

Depois de um colapso de perto de dois anos
em que não escrevi uma linha, deu-me agora
o desespero para dirigir loucas palavras de
Adeus a quantos foram meus camaradas de
Letras. É possível que o meu silêncio, incom-
preensível,a tenha intrigado. Mas penso que lhe
teria já chegado aos ouvidos que, vitimado pela
mais terrível desgraça que pode acontecer a
um homem, passei um ano de tortura sempre
crescente, porque nunca perdi a lucidez, por casas
de saúde e manicómios. Inútil calvário subi,
pois que diariamente se renova, com cruci-
fixão (? Será assim a ortografia?) e o mais dos
suplícos de Cristo. Com todos os exemplos da Tragédia grega.
Saiba que estou menos do que uma sombra

daquele que conheceu. Entre os suplícios que fundo
me ferem, está o de não poder ouvir música.
Em vão busco sentir-lhe a beleza, só me magoa.
Ler, também não leio. Nada. Não li, assim,
os seus dois últimos livros (eu, calculo!), e
nunca hei-de lê-los, como nenhum livro mais, sequer
uma quadra, até à morte, porque não tem cura
este diabólico mal. Nunca, tenho a certeza,
aconteceu tal tragédia (Tragédia!) a nenhum
escritor do mundo. Nem ao Lostoievsky,
tenha a certeza. Ferve-me inutilmente
no crâneo o mais espantoso romance de
todos os tempos, o qual – pois o contrário
seria uma petição de princípio – nunca poderei
escrever. O romance de um homem que se sente
perdido de ele próprio – e portanto de todo
o universo – e que, em vão, luta por recon-
quistar-se. A luta do homem anormalizado a
querer tornar-se normal, o que foi, e
esse que foi, emparedado num labirinto

sem outra saída que não seja a da morte.
Naturalmente que nunca mais nos veremos,
minha tão de mim admirada e nunca de
mais exaltada Mulher de Letras. Assim,
digo-lhe adeus. Alguém, em Portugal, com
o talento capaz de escrever um romance
- e muito longinquamente aproximado do
romance terrível que estou vivendo e
padecendo, só V., Maria Agustina. Mas
a V. falta-lhe a experiência, e a mim
a experiência, só, não chega, pois me
falhou o mais. Existe, assim, um homem
vivo, que tem de considerar-se morto para
tudo: a família, os amigos, a sua casa,
- as tão queridas filhas – para qualquer
aspecto da beleza do amor. Raciocina, as não
sente. Por outro: sente errado,
aberrado. Chama-se a isto “estuporamento”.
É como ter o diabo no corpo. É como
estar raivoso. É possível que seu

marido, como adengado, tenha qualquer tratado
de Psiquiatra, o Nagera, por exemplo.
Se à sua curiosidade de romancista aprouver,
leia o capítulo do “estupor.”
A palavra diz tudo, até porque o povo,
sem saber, sabe tudo.
Adeus, Maria Agustina. Não aceito
que me não perdoe tê-la deixado até
hoje sem nada lhe dizer dos seus livros.
Compreende (poderá compreender?) a
tortura dum homem como eu, dum
bicho literário como eu, ao sentir-se
incapaz de ler. “There are more
Things in the heaven, Horatio, than
you can” (?understand?)
O que me custa, ao cabo, já que nada mais
posso esperar, é morrer sem panache.
É horrível. Ando, a cada momento, à espera
do momento de poder morrer com panache.
Sem panache não posso viver.
Leia o Nagera, ou qualquer outro para

fazer uma ideia do “estuporamento”.
Só uma ideia, porque, hoje, pela experiência,
eu sei mais que todos os Psiquiatras
do mundo, os quais só vão apurando
alguma coisa quando uma pessoa como
eu – inteligente, culta, lúcida – cai no
terrível quadro. Eu poderia hoje ser
professor, neste capítulo, de todos os
psiquiatras do mundo. Horrorosa gloria…
Num caso destes, Maria Agustina, o suicídio
será valentia ou heroicidade? Penso que
o problema é insolúvel. O problema ultrapassa o humano.
Estou, neste momento, forçado a ouvir música. Que tortura a
minha, achá-la bela e impossível!
Sufoco. Não é figura de retórica, acredite.
É fisicamente certo. Os pulmões e o cora-
ção não me cabem no peito. (No meu peito
de couraceiro!) Nem o cérebro me cabe no
crâneo. Arfa, em espasmos dolorosos.
Quer saltar fora. E tudo é inútil, não,

tardio, parado, apesar de “a vida começar
amanhã” como diz o Goethe (não o Pigrilli).
Escrevo como quem respira, Maria Agustina
feliz, que não sabe o que é sair do mundo,
entrar no mundo impossível do espanto contí-
nuo. Os poetas – e que sou eu? – não são
deste mundo, e foi arremessando a este mundo
em má hora. Eu, hoje, acredito é nas
estrelas. Tenho fundadas razões para isso.
Olhe que é fatal! Assim como é fatal o
destino que trazemos escrito nas linhas da
mão. Tudo soube, tardiamente. E hoje, sem
que um possa expulsar o outro, sou anjo
e demónio, ao mesmo tempo. Ao cabo, sou só
anjo, mas o demónio vendou-me os olhos.
Um homem que saiu da vida, que é só sofrimen-
to e sede de Beleza, diz-lhe adeus, Maria
Agustina. Olhe que, se há Inferno, e se ele
é assim como o que sinto, ninguém queira
lá cair. Sabe que “estuporamento” e

“inferno” em Psiquiatria, são rigorosamente
sinónimos? Por isso se chama ao “choque
insolínico”, que, por duas vezes, sem qual-
quer utilidade suportei (é ultra terrível:
basta a mordaça que nos metem, para
não trincarmos a língua), por isso lhe
chamam a “descida aos Inferno”.
Maria Agustina. Eu, agora, se pego na
pena, nunca mais paro. Escreverei
até à hora da morte. É, também, a
única maneira de fugazmente me
reencontrar, de tornar a ser eu,
aquele que foi e sou (sem o sentir),
“sans peur et sans reproche”, como
o Bayard, ou, então, como aquele
que caiu em Alfarrobeira: “É fartar,
vilanagem!”
Recebe, Maria Agustina, a carta dum

louco lúcido. Recebe – deixe-me, em
pensamento, irmãmente abraçá-la e
beijá-la: minha querida irmã na
Beleza, minha romancista rival de
que não tinha ciúmes, porque sempre dei
o seu a seu dono e lhe reconheci maior
talento do que o meu – recebe uma carta
de além-da-morte, dum cadáver que se
inteiriça e rebenta o caixão para ainda
falar. Eu, que sou do céu, falo-lhe do
Inferno. Pode haver momentos – e há – em
que a alma não cabe no corpo e lhe força
todas as costuras, rebentando-as sanguinolen-
tamente. Oiça, Maria Agustina. Já nada existe à
minha volta, se não a impossível de saciar
sede de Beleza, de Plenitude, de Eternidade,
nem vou não pode caber dentro dum
morto. Eu sou esse vivo, que só vive na

morte do sono, - e sono que só alcança com
comboios (!) de comprimidos estupefacientes.
Caí, para não mais me levantar. Sou, apenas,
uma alma visível, sem que ninguém
possa vê-la, nem os mais argutos e
de olhos mais abertos. As almas não
se vêem: comunicam-se, fundem-se.
Estará a pensar que estou louco, Maria
Agustina? Pois estou, bem o sei. Por
isso os meus olhos, que mal vêem –
quase perdi a vista – se alongam para
fora das orbitas, cegos da luz deste mundo,
que não lhes basta e é falsa, a procurarem
a luz que luz fora do Tempo, a luz do
Eterno.
Escrever cartas, revoltando-me, ainda é a
luz que me resta. Ao escrever ainda sou eu,
o eu antigo que dentro de mim estrebucha
na camisa de onze barras do Tempo “irre-

versível”. Levou-me o Tempo, e eu quero tornar
atrás no Tempo: impossível ao próprio
Deus. Fugazmente, mais do que eléctrica-
mente, volto, ao escrever ao ser e que fui
e que sou, embora cego, com os olhos da alma
errada que não sabem ver correctamente.
Escrevo ao maior valor do romance portu-
guês de todos os tempos, a V., Maria Agustina. Adivinhe o
meu inferno e escreva-o, Maria Agustina.
Por mim, só sei fechar-me durante horas
num quarto escuro. Tenho, todos os dias, de
fazer isto. Passado um tempo, caio em transe,
entre este mundo e o que foi o meu mundo,
apertando a cabeça com impotentes mãos
humanas, que não têem o poder de Deus,
se é que existe Deus.
Sabe que, se a isso me dispusesse, esta
carta que escrevo ao correr da pena e do

sofrimento nunca mais teria fim?
Deixo, afinal, em cartas, o meu terrível
e vivido romance.
Repare que me ficou o estilo. Sei que ainda
sei escrever. Só que o prego que me atravessa
os miolos. Só que o prego que me atravessa
os miolos, obrigando-me a meu pensamento
único, me inibe da variedade livre, sombria
ou risonha, de asas abertas, de que um
romancista precisa. Romancista nasci
e romancista hei-de morrer, construindo
e derrubando, em pensamento, o romance
que sinto de mais para o poder escre-
ver. O romancista, posto que em chama,
tem que ser uma pessoa fria, e eu ardo,
carbonizo-me indefinidamente, sem
que o fogo me consuma: Fénix de mim
próprio.
Sou, depois de um colapso psíquico,

o homem mais valente do mundo. Por
outra: volta a sê-lo. Se, agora, me
aparece em frente dos olhos alguma
dos que me fez dano (me danou), tenho
a certeza de que lhe aperto a garganta,
até o deixar estendido. Depois, e
de novo, o manicómio. Para sempre.
Nem eu me considero fora dele. Ando
por aqui a fingir que tenho juízo, ou a forçar-me a tê-lo.
Maria Agustina. É possível – eu agora
só sei de mim o instante em que estou – que
um dia vá aí ao Porto e a procure. V.,
como romancista, não deixará de apreciar
um espectáculo, o espectáculo que hoje sou.
Mas, descanse: o fidalgo que sempre fui
e continuo a ser, hirto, de talon rouge, só se
amostra louco com as irresistíveis lágrimas que facilmente,
lhe turvam os olhos já inúteis. Se estou morto,

não me resigno a morrer sem fazer mais
nada. Morto o vivo – caramba! – Ultra-
passa o entendimento. A vida só é vida
quando se vive: negra, embora, mas vida.
Oiça, Maria Agustina: lembro-me
agora. Eu perdi tudo, até o poder do
sentido da deslocação. Estou paralizado.
Um psiquiatra antigo, o Júlio de Matos,
chamou a isto “paralisia geral”.
Oiça, por isso, Maria Agustina. Quer
passar, ultrapassar o seu mestre Lortvi-
evsky? Venha, com o seu
marido e meu prezado amigo, passar
uns dias aqui a Estarreja. Eu dar-lhe-
-hei, vivo e falado, esse romance. Tenho
aqui, irmãmente, cama, mesa e
roupa lavada. Não me resigno

a morrer assim: inglório, sem refilar.
Só pela sua pena poderia ainda refilar. A
minha partiu-se.
Com muitos cumprimentos para seu
marido, creia-me, o

ex-camarada romancista, mas
ainda escritor dos pés à cabeça,

Tomaz de Figueiredo