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Tomaz de Figueiredo a Maria Agustina Bessa-Luís a [data desconhecida]Minha Senhora eMinha Amiga: Releio, perto da madrugada, porque há muito que só me deito com dia – a escrever, a escrever, a escrever sempre, a fugir de pensar – a admirável carta que não me espanta escrevesse a Irmã do Alexandre. Reli-a e fez-me bem, porque me encharcou os olhos. Chorar ainda é um estremecer de vida, e agora estou duro, seco, incomo- vível, represado e esmagado, enegrecida de mágoa, de angústia, de desespero, de sentimento de fim irremediável, de noite irreversível, a faculdade de ser, de viver. A dor fundiu-me todos os sentimentos num só, o do sofrimento, porque o próprio Bem me faz sofrer. Assim, calcada, vou ajuntando na alma – se ainda a tenho – isso a que os psiquiatras chamam carga afectiva: tudo quanto se ama, negro e em chaga, em transe ou em catalepsia: virtualmente morto. Creia que tenho sido heróico e estóico. saberem que sim, só os especialistas, porque o vulgar médico não entende, chega a desconfiar de manha, de simulação. Acreditaram que sim, só os que me conhe- cem: olhe que dezenas e dezenas de amigos. Não sei quantos, sei que muitos. A única soma da minha vida que não dá zero é a das amizades: também a única forma porque a vida me tratou com justiça. A mania da perse- guição não a tenho: julgo que será difícil haja alguém com mais amigos. Quando, há uns seis dias, recebi o último livro do Aquilino, com uma dedicatória de amigo a tentar chamar-me, à vida, pensei quanto pode o espírito pairar acima de crenças, de Ideias, de Partidos. Duas pessoas diametralmente opostas, encontram-se Einsteineanamente no infinito, que não é tão sem fim como diz a palavra, que é perto, que até se toca, fechando em círculo, porque as almas – aí vai uma das minhas imagens que algumas pessoas não me perdoariam, mas escrevo-a – são uma espécie de gatos que giram com tal velocidade que chegam a abocar a cauda. Aliás, a serpente de cauda na boca já os antigos a quiseram de símbolo do infinito. Era, porém, um símbolo fácil, por estático, e, assim, falso, por o infinito ser o movimento tão rápido que nem se sente, porque é estar em todos os pontos as mesmo tempo. Repito que tenho sido estóico. Suportar uma doença, porque a neurose é uma doença – e a mais terrível – sabendo-a incurável e até progressiva indefinidamente, sei que raros ou talvez nenhum o haja feito. E chego a sorrir da ingenuidade de me terem tirado do alcance determinados objectos que em má, ou boa hora, poderiam tentar-me. Ninguém me conhecia, nem eu próprio. E vou-me aprumando em cima da dor perpétua, que outra coisa não pode chamar-se a teimosia de ir escrevendo livros em cima de livros, e a saber que nada aproveito com escrevê-los, embora saiba que são afirmações do que não sinto mas tenho – alma. Desgostos com saúde, suportam-se todos, sei que sim, e suportei dos da melhor escolha, fiz-lhes até frente de má cara, quando são, quando eu todo. Suportá-los quando leso é já diferente. A saúde psíquica, primeiro! E enquanto mais a esta se persegue, mais se distancia. Dizia-me, cheio de lucidez, um louco do Telhal: “Deus não mande ao corpo tudo com quanto ele pode!” E também: “De que serve ir para aqui ou para acolá, se o mal vai conosco?” Este saber é que paralisa. Entretanto, porque devo lutar, porque devo afirmar-me, porque sei intelectual- mente que tem de ser assim, irei viver (?) para Lisboa muito brevemen- te. Levo o mal comigo, mas também os livros que, sem que eu os acompanho para que sejam publicados, se podem comparar a filhos a quem morreu o pai: o único modo que tenho de esbofetear os imbecis criminosos que, à bruta e calando tudo, sem respeito pelo própria alma, que tem o direito de ser inviolável, me despacharam para o mundo terrífico e inconcebível duma casa de loucos, - é resistir à vontade de me ir embora, à tentação de me libertar e, a frio, de pau, de antiga plenitude que era a de publicar um livro, ir publicando um, e mais um, e mais um: dez, vinte, trinta. E é isso que vou tentar, posto que os editores prefiram livros menos bem escritos porque – dizem – têm mais venda! Os romances querem-nos eles, no entanto. As poesias é que torcem o nariz e, comercialmente, com razão. A ver se uns rebocam os outras. Sei bem que, se não tratar eu destas coisas, depois de me ir embora ninguém tratará. E, daí, talvez me engane. Talvez, se me fosse embora, então caísse uma chuva de interessados sobre os meus papéis. Como quer que seja, continua verdadeiro que quem não aparece esquece, e vai com cinco anos que não vou a Lisboa: isto é – que não ando por Lisboa e não vejo os meus amigos. Desgraçadamente, não posso fazer o que já contratava: uma palestra semanal na Emissora, porque a nevrose alterou-me a própria voz. Sofri uma queima em todos os sentidos: moral, sentimental, física e até material. Até material, não só pelo que foi gasto com internamentos e trata- mentos, como pela amputação de faculdades de trabalho. Conversando, já que a pena me foge pelo papel fora, - exactamente um mês antes da marretada na cabeça, tinha eu combinado essa palestra na Emissora, que, além do prazer de lá apresentar uma coisa absolutamente nova, me renderia, com a publicação no Diário Popular, então dirigido por um dos meus melhores amigos, a quantia, que já é bonita para um escritor, de setecentos mil reis: dois contos e oitocentos por mês. Foi o projecto pela água abaixo. Não só perdi o clima sentimental dessas palestras, como a possibilidade de as ler eu. As restantes, certamente que se manteriam, mas foi-se embora o melhor: a disposição de as escrever, a alegria que lhe davam. Foi uma queima. Queima tal que nem poderia andar só pelas ruas, já que ando com dificul- dade. Não sei bem o que me espera, mas, se isto não acaba depressa, ainda terei de arranjar uma cadeira de rodas. Veloz, só o pensamento. Só esse não me foi queimado, mas não doía e agora dói. Ah! Perdoe-me. Reparo que já [A carta acaba assim] |