
|
Tomaz de Figueiredo a Martim [apelido e data desconhecida]Querido e Velho MartimRecebi o teu telegrama e abraço-te pela amizade com que tão pronto acodiste a minha agonia de pai e de homem, que se vai ajuntando ao rolar de agonias que terá de rolar até ao último instante do último dia. A tua prometida carta é que não me chegou, e bem suponho em que mãos tenha caído, desde que endereçada a um nome igual. Estúpidos governantes estes que recusam a aceitar que a única e eficiente forma de lutar com o partido – cuja força está na clandestinidade e no martírio oferecido – seria de reconhece-lo. Aconteceria o mesmo que em Itália e França. A Nação prevaleceria da facção, da insignificante patrulha. Vaidade a mais, enfim, e…inteligência a menos. Muitos defeitos a mais, muitas virtudes a menos…Entretanto em Cuba, o Furgencio passou a Fuliginoso. E entretanto eu, que vivi quarenta e tantos anos de amor consciente á minha Pátria e a minha Língua espero a volta ao manicómio: lúcido de entendimento e enlouquecido de sentimentos, mercê da mais iníqua das ordálias, da mais temível, e das injúrias, aplicada em colapso mensal e cerebral, por espaço de 13 espantosos horas. E, tudo, após anos de arbítrio e de sadismo: terrível conjunto que só eu abarco. As minhocas vieram à tona, Martim, e passaram a vestir-se de foguetão preto e calças de fantasia, porque…dos fraques não reza a História. Recebi carta da minha Mulher, dizendo-me que o meu Tomaz lhe escreveu do Aljube a pedir umas coisas, mas incomunicável. Ao rolo das desgraças, e conto-a nas maiores, ajunto a de eu, monárquico, não poder ser o advogado do meu Filho, e que terrível e troadora seria a minha voz. Claro que não lhe seria útil, mas… o Moro – Giaferi meteria a cara dentro dum saco, e os Juízes talvez não assinassem a sentença, envergonhados, por fim, de só burocraticamente serem homens. Não sei, Martim, se é o diabo ou Deus que tenho no corpo. Tenho-os, aos dois, o diabo a cavalo de Deus, e Deus a ofegar por se libertar do cavaleiro ignóbil. – Grande e amigo abraço, Velho, do antigo e sempre Tomaz |