
|
Tomaz de Figueiredo a Maria [Apelido e data desconhecidos]MariaÉ bom, adoça dores, quando o escritor busca ser igual ao homem quando se recusa à morte e insiste em acreditar na alma – saber de alguém que o lê, posto que lisongeiramente: posto que muito perto de o inventar. Decerto que a Maria é a minha melhor leitora, e, creia, ao mandar um livro para o prelo, já me pergunto: aquela Maria gostará? Escrevo-lhe do Douro. Vou passar aqui uns dois meses vindimando – isto é, vendo vindimar – disparando uns tiros às perdizes aquecendo-me ao borralho - porque não tarda a neve – ouvindo histórias do tempo dos Franceses, do Zé do Telhado, de almas do outro mundo, e eu a não perder pitada, por vezes, com o microfone do gravador atento à gaita de beiços do marmajão João conquistador ou à reza das velhas, pois aqui, antes de deitar, ainda há quem reze o terço. Recebi em Lisboa a sua carta e logo destinei mandar-lhe daqui umas palavras e uns livros que não conhece, especialmente uma peça de todo maluca “os Lírios Brancos, ou a Salvação Universal” que há uns sete anos veio numa revista e que não saiu ainda em volume. Afinal, a peça, esquecida em Lisboa, na Trapa- lhada de emalar os precisos a uma temporada de aldeia: espingardas, cartuchos, pilhas para o transístor e para o gravador, o binóculo, a Rolleiflex, underwood, o arsenal das canetas e das esferográficas, lembranças para as mocinhas do caseiro, lâminas de barba para este senhor, uma saia de terilene para a mulher (abre em pregas como um acordeão!), pensos para algum trambo- lhada no monte, conservas para comer no monte: o diabo, enfim, minha amiga. Assim afalcoado, deixei os Lírios Brancos e uma data de nicas. De volta a Lisboa, lá por Dezembro, daí lhe enviarei a maluquita dos Lírios Brancos. Hoje, sequer lhe um livrinho não meu, “Encontros” que porventura lhe interessará. E pronto, Maria: Beijo-lhe as mãos o muito agradecido T. de F.
Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Maria [apelido desconhecido]. |