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Tomaz de Figueiredo a Leonel Furtado a [dia e mês desconhecidos] de 1947Meu Querido LeonelOu antes : - raio de Leonel, rabequista Leonel, que me apanha desprevenido. Atira uma arcada romântica e me fala da Maria da Graça, que sem ter-te nem quarto, me alaga os olhos… de facto aqui estou, e não deve ter havido grande diferença entre a minha viagem e a de uma debulhadora pronta a Funcionar, despachada ao domicílio. Aqui estou a debulhar. A impressão é esta, o mais que lhe diria só podia ser da paizagem, que parece a dum Alentejo povoado e verde, dum esteiro por onde abicam a Estarreja aqueles moliceiros eminentemente folclóricos, esteiro que choca exércitos de melgas trombeteiras (Mas então isto aqui é Estarreja, ou é Melgaço?) Talvez seja ainda Lisboa, pois que me entra pela Janela a marcha: Lisboa nasceu, pertinho do céu… Cantada por uma sopeira horrenda. Claro que fui ver se era horrenda ou não. O meu colega de secretaria chama-se H.A. Basta, não? Para uma possível Marcha de Estarreja: gravata de juta, O f.... da p… É que usa uma tal gravata óssea, côr de trampa de menino, que ainda mais que de juta parece de esparto. Um, como tantos de “presunto a tiracolo”, modelo de funcionários, trabalhador indefeso, fatos feitos em Aveiro, um livro de Mantegaza perdido entre Revistas, calhamaços jurídicos e teias de aranha, na estante de cerejeira, desaprumada e de vidros cagados das moscas. E a caneta, Leonel, a caneta! – As cores todas de espectro, e o depósito deve levar aí seu decilitro de tinta, para riba, que não menos. Então que me deu para andar com um caderni- nho no bolso… Volta e meia dou um salto ao “Café”, tomo um café. Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Leonel Furtado. |