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Tomaz de Figueiredo a Luis Assis a [data desconhecida]Meu Querido PrimoUf! Depois de mil conversas e conversinhas, consegui finalmente que todos os protectores aos diversos concorrentes à vaga do guarda do cemitério, desistissem dos seus pedidos, de forma que, continuando todos nós em harmonia, o seu protegido Alípio vai ser nomeado na próxima quinta feira! Fizeram-me doer a cabeça com os seus melindres e susceptibilidades êstes senhores impor- tantes cá do burgo! A propósito, - o Alberto, que tinha desistido, conforme disse à Carlota, voltou com a palavra atraz! Eu cá fiz uns quites ao Antoninho Lacerda e tudo carrilou, felizmente. O caso da nomeação do Sant’Ana para o novo partido médico a crear pela Câmara é que, repentinamente, se turvou. O Antoninho Lacerda, aproveitando a minha estada nos Arcos, tratou de minar o Conselho Municipal para que rejeitasse a proposta da Câmara. Depois de feito êste trabalhinho, veio dizer-me que ia tomar essa atitude, em defeza do Concelho, no fundo, apenas para contrariar o Governador Civil. Disponho, que eu saiba, alem do meu voto, do dos Drs. Lacerda e Gaspar de Abreu, e da abstenção por ausência propositada, dum dos outros membros. O próprio Custódio Neiva está mal impressionado e a querer esquivar-se. Falei nele com êle, e, para cortar mais palavriado, aconselhei-o a que fosse ter com o Primo, a pedir-lhe a sua opinião. Como o Primo aí nos Arcos achou bem a solução da creação dum novo logar, peço-lhe o favor de o conversar bem quando êle aí fôr, o que suponho será breve. Basta-me o voto do Custódio para que o meu ponto de vista vingue. Na pior das hipóteses haverá empate, e eu não hesitarei em fazer valer o meu voto de qualidade. Como sabe, o segrêdo é a alma do negócio! Eu basta-me saber assegurado o empate para ficar descançado. O Antoninho Lacerda, macacão! Está lá a pensar que tem tudo arranjado mas a absten- ção com que não conta e o meu voto de qualidade de que ignora posso dispor, hão-de surpreendê-lo, quando já não puder mestrejar mais. Tudo isto é uma espiga que chega a enojar-me. A ver se levo esta cruz, não ao Calvário, mas ao inferno, para que a queime! Brevemente aí irei. Como a Maria Antónia lhe disse, o caso do escritório para o Luiz, apenas aguarda que êste venha aos Arcos para ficar arumado. Ele já regressou Lisbôa? Do que se passar com o Custódio, muito lhe agrade- cia que mo comunicasse. Êle achou muito bem o meu conselho e não sonha que eu estou a escrever esta carta! De facto é-me absolutamente necessário o voto dêle. Confio no Primo e na sua amizade. Com muitas saüdades para todos, creia-me sempre Primo muito admirado e grato Tomaz |