Tomaz de Figueiredo a Luís Assis a [data desconhecida]

Meu Caro Luiz

Ha bem 275 anos que te devo resposta
mas, tu compreendes e sabes que o meu
silêncio não significa silêncio.
Antes de mais informo-te de que é quási
certo, certo mesmo o que puzeste em dúvida
o Cancela foi dizer de ti ao M. cobras e lagartos daí
a iniciativa e torpedeamento. Ao menos sempre fica de
parte a hipótese de deslealdade do
M.S.º. No entanto, meu caro Luiz, sem pretender
inventar estúpidas consolações – que não estão no
meu jeito – penso e repenso e ache que, muito
possivelmente, nada perdeste. Quem
sabe em que inferno provisório te ias meter!
Depois tudo é incerto. Ainda ontem estava de sol e já hoje
Todo o dia choveu, dizendo vários saragoçanos que vai
chover a potes. Em sequência desta humanidade
a estátua do Marquez, ali à Rotunda, que parecia

desafiar os séculos afirmam, que tendo começado
a desaprumar-se, já não haverá escoras
que a mantenham. Assim embora de bronze o Marquez
já sabe a sorte que
o espera, afirmando-se que será êle próprio
quem se deixará abaixo, para o que já tem
à mão um pára-quedas. A questão este em
que, por estar tas perto do chão, talvez o
citado pára-quedas não tenha tempo de abrir.
Fala-se em que será construída uma nova estátua
decerto mais efémera do que a anterior, ao
Marquez de Soveral Júnior.
Hei-de ir procurar o Gonçalinho
pois gostava de falar com o Tio e não
sei onde aparece.
E tu? Se calhar qualquer dia és capaz de
aparecer por cá. Apita logo. Eu vou tentar
acabar o meu livro dentro dum mês, pois
é natural que apareça editor.
[Carta incompleta]

 

Nota: Rascunho da Carta de Tomaz de Figueiredo a Luis Assis.